terça-feira, 7 de junho de 2022

Memórias de Francisco


 PRÓLOGO   

Reza a lenda familiar que na madrugada do meu nascimento, uma sexta-feira de lua cheia e brilhante, todos os terreiros de candomblé da pequena vila de pescadores de Arembepe tocavam seus tambores e atabaques de forma uníssona. 

Enquanto as canções eram entoadas no dialeto iorubá, minha mãe gemia bravamente diante de uma nova contração. O parto se deu numa pequena e humilde cabana de pau a pique coberta com palhas, tendo como testemunhas a experiente parteira Dona Zulmira, uma solteirona de 68 anos e a mãe Lucinda, uma ialorixá da comunidade, amiga de longa data de mainha. 

Entre o exato momento do meu nascimento e o primeiro choro, houve um lapso temporal de duas horas. Durante esse intervalo que se mostrou interminável, todos os presentes se mostraram tensos e temerosos quanto ao meu destino. Havia um verdadeiro temor à época do ocorrido quanto à crença do Àbíkú. Minha mãe chorava muito, pois não queria que seu primogênito, que tinha acabado de chegar  ao Ayié, voltasse ao Orún. 

Foi então que chorei, mas chorei tanto que outra problemática foi suscitada: o que fazer com aquela criança tão chorona? Até hoje eu não saberia responder como consegui a façanha de mamar chorando, brincar chorando, participar das cantigas de roda chorando! Foram tantos choros que acabei aos três anos de idade sendo jogado num rio de água corrente e gélida.  Acreditava-se que com esse ritual eu estaria livre de qualquer Ajé. Isto posto, não sei por que cargas d’agua não consegui mais chorar... 

Meu pai era um exímio pescador; nunca faltou comida em nossa mesa, até aquele final de tarde quando sua canoa desapareceu durante uma furiosa tempestade. Foram vários dias de vigília em frente ao mar, e nenhum sinal do seu paradeiro. A mãe Lucinda consultava reiteradamente os búzios, mas nem os oráculos forneciam respostas. 

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Após quinze dias de buscas, sua morte foi dada como certa; os demais pescadores julgavam impossível uma pessoa sobreviver por igual período de tempo sem água potável e comida.  

A comoção foi geral  na pequena vila. Painho sempre foi meu herói; eu amava ficar olhando sua partida para o alto mar em sua pequena canoa. Ele criou um verdadeiro ritual antes de se lançar na tépida água. Geralmente acordava antes do nascer do sol, tomava uma caneca de café, acendia um cigarro de palha, beijava a face de mainha e ia até à tarimba onde eu dormia e passava as mãos por meu cabelo. Era tão reconfortante aquele gesto de carinho! E em seguida partia lentamente arrastando sua rede de pesca e uma garrafa de pinga. 

A mãe Lucinda consolava mainha dizendo que um negro quando morre se torna ancestral, vira um Orixá. Que painho tinha retornado ao Orún completar seu Odú. Que Obaluaê, Nanã e Oxumaré  o guiariam para sempre.              

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CAPÍTULO I   

Eu já contava com seis anos de idade quando fomos de muda, mainha e eu para Salvador. No primeiro instante ficamos na casa de dindinha Helena no bairro de Capelinha de São Caetano, mas nossa estada foi breve, pois surgiu a oportunidade de mainha trabalhar como doméstica na casa de uma  grã-fina na Rua Chile. Dona Herculana Mercês era casada com o Desembargador Dr. Estêvão Mercês, homem sisudo, dado às leituras, comedido com as palavras, mas vez ou outra esboçava um sorriso discreto para mim. Quanto à Sra. Mercês era o oposto do marido; estava sempre com um sorriso no rosto, falava pelos cotovelos e exigiu que mainha me matriculasse numa escola, argumentando alto e bom som que os estudos dignificavam o homem. 

O filho do casal morava no Rio Grande do Norte, era juiz na capital, e dificilmente aparecia para visitar os pais. Diante da citada peculiaridade, só posso dizer que fui beneficiado com a negligência do “doutorzinho”, pois a Sra. Mercês não economizava em carinhos, elogios e insistia nas compras de pequenos mimos para mim. 

Mainha alugou um quarto e sala na Baixa dos Sapateiros, e eu passei a estudar ali próximo. Logo de início fiz amizade com um molecote da Liberdade, mas que morava com a vó no Pelourinho; a mãe tinha ido embora para Juazeiro, deixando ele e a irmã Mariana aos cuidados da velha senhora.  Antônio, ou Toinho como era conhecido pela turma da escola, ajudava o avô a vender ervas de banho na Feira de Água de Meninos. 

Quando éramos liberados da escola, nos dirigíamos à porta do Cine Tupy. Gostávamos de ver aqueles homens vestidos de ternos e gravatas, entrando e saindo do cinema. Eu tinha a convicção de que todos eles eram desembargadores como o Dr. Estêvão Mercês, pois era aquele tipo de roupa que diariamente o patrão de mainha vestia para ir trabalhar. 

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Toinho era um moleque bem franzino, cabelos crespos, pele tostada pelo sol e o seu olhar estava sempre distante; acho que ele tinha saudades da mãe, assim como eu tinha de painho.  

Do alto do Elevador Lacerda, ficávamos deslumbrados com as enormes embarcações que atracavam no cais. Eu sempre tinha em mente que algum dia eu partiria com mainha para algum lugar além-mar. Nessa terra distante minha mãe era uma rainha muito bela com seus cabelos soltos ao vento, e com seu vestido longo e azul igual ao de Iemanjá.                    

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CAPÍTULO II   

Não sei como tudo aconteceu, mas de repente eu tinha um padrasto. Seu nome era Givanildo, estivador no porto e proveniente do recôncavo, mas precisamente da cidade de São Félix. Mesmo a contragosto, pois o meu pai seria insubstituível, acabei aceitando a presença daquele indivíduo; a felicidade de mainha vinha antes de tudo. Era um negro de estatura mediana, corpo robusto e braços fortes em decorrência da árdua e sofrida jornada de trabalho. Fazia o tipo bonachão, e aos poucos fui simpatizando com ele. 

A vó de Toinho tinha sido despejada do casebre onde morava no Pelourinho, e assim eles foram morar no subúrbio ferroviário numa casa cedida por um parente. Passei a me sentir muito só nas andanças pelo Centro Antigo. 

Estávamos nas festividades natalina, e mainha sobrecarregada de trabalhos na casa da Sra. Mercês, pois seria dada uma grande ceia na noite de natal a um seleto grupo de intelectuais soteropolitanos. A mim, foi delegada a responsabilidade de descascar as batatas, o que realizei com muita destreza.  

Passava das duas horas da madrugada do dia vinte cinco quando a recepção acabou e nos dirigimos a nossa casa. Eu ia abraçado à cintura de mainha, e ela tinha colocado um dos braços por meu pescoço. Alguns beberrões gritavam euforicamente enquanto caminhávamos pela rua pouco iluminada. Apressamos os passos. Um casal se beijava sob uma marquise, e nem notou nossa presença. Seguimos adiante. 

Um alvoroço era perceptível mesmo de longe em frente à avenida onde morávamos. O motim era geral, e não foi possível entender o porquê daquele quiproquó. Diversos impropérios eram ditos ao mesmo tempo. Empurrando-me com firmeza, mainha conseguiu fazer com que nós atravessássemos aquele cenário de balbúrdia. 

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No dia seguinte nos mudamos para uma casa maior, localizada na Ladeira da Montanha. Na verdade era um velho sobrado, mas oferecia dois quartos e tinha um banheiro dentro de casa; não precisaríamos dividir com mais de dez pessoas como era na outra morada. Mainha e Givanildo ficaram com o quarto maior aos fundos, e eu com o menor, que ficava logo na entrada da casa. 

Notei pela janela quebrada do meu quarto, que todas as noites, estivesse quente ou frio, sempre havia uma luz vermelha em frente a um velho casarão na nossa rua, só que este era de três andares, e muitos homens eram vistos entrando, mas eu acabava dormindo, e nunca os vi saindo.                

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CAPÍTULO III   

Há uma tendência intrínseca à condição do adolescente, que o faz subverter da forma mais inusitada todas as regras estabelecidas pelos pais, é a chamada curiosidade. Comigo não seria diferente. A luz vermelha não saia da minha mente. 

Certa noite, após mainha e Givanildo terem se recolhidos para o quarto, levantei-me sorrateiramente da minha cama e fui montar guarda diante da janela. O velho assoalho rangia a cada passada minha, parecia que ia acordar toda a Cidade Baixa. Eu prendia minha respiração ante o medo que mainha despertasse, ela não admitia que eu ficasse acordado até tarde, pois teria aula na manhã seguinte e não poderia cochilar diante do professor. 

Lá fora sob uma luz fraca, dois homens jogavam dominó nas aproximações do casarão da luz vermelha. Como gesticulavam muito,  pareciam discutir o tempo todo, pois um queria trapacear o outro. Não demorou muito e começou um verdadeiro desfile de homens pela rua. Alguns trajavam ternos e gravatas, e os demais davam a ideia de que tinham acabado de sair do porto.  

Comecei a sentir as pálpebras pesadas, mas com muita determinação consegui afugentar o sono. Decidido, abri com um esforço sobrenatural o trinco emperrado da velha porta do andar de baixo, e saí.  A brisa que vinha do mar fazia com que noite estivesse com um clima agradável. 

Não encontrei nenhuma dificuldade em adentrar no velho casarão. Senti-me como se fosse um homem invisível. Fiquei espantado com as roupas que as mulheres vestiam, ou melhor, não vestiam. Muitas exibiam os seios sem nenhum pudor. Os homens bebiam muito e riam que nem uns bobalhões. O ambiente era bastante espelhado e a iluminação amarelada; o forte odor de cigarro impregnava o ar. 

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Uma garota me empurrou contra a parede de um corredor. Eu já não era invisível. Notei que era tão jovem quanto eu. Os seios pareciam esmagados no minúsculo soutien. Seu hálito era puro álcool e tinha as unhas pintadas de um vermelho intenso. Mainha sempre me dizia que a Pombagira gostava de vermelho. 

Tentei me desvencilhar da jovem garota, mas ela estava possuída por uma força descomunal. Introduzindo uma das mãos sob meu calção, agarrou meu órgão genital. Mesmo amedrontado, senti-o endurecer. Abaixando-se, a garota levou-o à boca. Estremeci violentamente. 

Uma mulher mais velha, horrenda, diga-se de passagem, pois além de exceder na maquiagem estava mais enfeitada que um jegue na Lavagem do Bomfim como diria Givanildo, apareceu no exato momento em que eu achava que iria explodir de tanto prazer. Puxando a garota pelos cabelos, a violenta e esdrúxula senhora acabou por esbofeteá-la ali mesmo na minha frente. 

Digamos que em questões de segundos eu já me encontrava em casa, trêmulo e assustado. Naquela noite não consegui dormir.  

Só depois de alguns anos é que me tornei frequentador assíduo do casarão.         

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CAPÍTULO IV   

São Roque no candomblé é representado pelos orixás Obaluaê e Omolu. No dia dezesseis de agosto é dia de festa na Igreja de São Lázaro, e naquele ano em especial por ter recebido várias bênçãos, mainha colocou seu melhor vestido e saiu arrastando eu e Givanildo para a celebração. Durante o percurso ia rezando as Orações ao Senhor Obaluaê que conhecia: 

Proteja-me, Pai, Atotô Obaluaê! Oh, Mestre da Vida, Proteja seus filhos para que suas vidas sejam marcadas pela saúde. Vós sois o limitador das enfermidades. Vós sois médico dos corpos terrenos e almas eternas. Suplicamos sua misericórdia aos males que nos afetam! Que suas chagas abriguem nossas dores e sofrimentos. Concede-nos corpos sadios e almas serenas. Mestre da Cura, amenize nossos sofrimentos que escolhemos resgatar nessa encarnação! Atotô meu Pai Obaluaê! +++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Dominador das epidemias. De todas as doenças e da peste. Omulu, Senhor da Terra. Obaluaê, meu Pai Eterno. Dai-nos saúde para a nossa mente, dai-nos saúde para nosso corpo. Reforçai e revigorai nossos espíritos para que possamos enfrentar todos os males e infortúnios da matéria. Atotô meu Obaluaê! Atotô meu Velho Pai! 

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Atotô Rei da Terra! Atotô Babá! +++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Mestre das almas! Meu corpo está enfermo… Minha alma está abalada, Minha alma está imersa na amargura de um sofrimento Que me destrói lentamente. Senhor Omolu! Eu evoco – Obaluaiê Oh! Deus das doenças Orixá que surge, diante dos meus olhos Na figura sofredora de Lázaro. Aquele que teve a graça de um milagre No gesto do Divino Filho de Jesus. Oh! Mestre dos mestres Obaluaiê Teu filho está enfermo… Teu filho se curva, diante da tua aura luminosa. Na magia do milagre, Que virá de tuas mãos santificadas pelo sofrimento… Socorre-me… Obaluaiê… Dai-me a esperança da tua ajuda. Para que me encoraje diante do martírio imenso que me alucina, Faças com que eu não sofra tanto – Meu Pai Senhor Omolu! Tu és dono dos cemitérios, Tu que és sentinela do sono eterno, 

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Daqueles que foram seduzidos ao teu reino. Tu que és guardião das almas. Que ainda não se libertou da matéria, Ouve a minha súplica, atende ao apelo angustioso do teu filho. Que se debate no maior dos sofrimentos. Salve-me – Irmão Lázaro. Aqui estou diante da tua imagem sofredora, Erguendo a derradeira prece dos vencidos, Conformado com o destino que o Pai Supremo determinou. Para que eu suplicasse minha alma no maior dos sofrimentos. Salve minha alma desse tormento que me alucina. Tome meu corpo em teus braços. Eleva-me para teu reino. Se achares, porém, que ainda não terminou minha missão neste planeta, Encoraja-me com exemplo da tua humildade e da tua resignação. Alivia meus sofrimentos, para que levante deste leito e volte a caminhar. Eu te suplico, mestre! Eu me ajoelho diante do poder imenso, De que és portador. Invoco a vibração do Obaluaiê. A – TÔ – TÔ, Meu Pai. Obaluaiê, Meu Senhor, ajude-me! +++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Salve o Senhor o Rei da Terra! Médico da Umbanda, Senhor da Cura de todos os males do corpo e da alma. Pai da riqueza e da bem-aventurança. Em ti deposito minhas dores e amarguras, rogando-te as bênçãos de saúde, paz e prosperidade. 

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Faz-me, Senhor do trabalho; um filho de bom ânimo e disposição, para triunfar na luta pela sobrevivência. Faz-me digno de merecer todo dia e toda noite, vossas bênçãos de luz e misericórdia. ATOTÔ OBALUAUÊ!    

                 

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CAPÍTULO V   

Aos quinze anos consegui conciliar um biscate, ou melhor, algumas vendas de jornais com meus estudos. Escolhi como ponto estratégico a Avenida Estados Unidos no Comércio. A grana não era isso tudo, mas ajudava um pouco. À noite minhas pernas ficavam doloridas, e ao levantar na manhã seguinte para ir à escola era outro martírio, mas decidi seguir firme e forte. 

Foi numa dessas tardes, enveredando-me pela Avenida da França que encontrei Toinho e Mariana. Eles estavam posicionados numa esquina, cada um segurando bandejas de cocadas. Mostravam-se bastante mudados. Os olhos de Toinho antes distantes, somava-se agora a uma tristeza sem fim. Senti um incômodo. Mariana estava crescida, mas assim como o irmão seus olhos expressavam desespero. Fiquei sabendo que a avó os tinham abandonado em Periperi, e ido embora para Amargosa. Estavam morando num porão no Tororó e acabaram desistindo dos estudos. 

Naquele dia voltei para casa abatido com a situação dos meus amigos. Não conseguia imaginar como seria a sensação de ser abandonado duas vezes por pessoas que a gente aprende a amar, a mãe e a vó. 

Durante um mês fiz o mesmo trajeto com o intuito de encontra-los novamente, mas sem sucesso. Eles partiram mais uma vez. Tal constatação provocou em mim a sensação de impotência. 

O Desembargador e a esposa iriam viajar para Natal no dia seguinte, e tinham dado à mainha duas semanas de folgas. Givanildo tinha proposto uma viagem a São Félix, o que mainha aceitou incontinenti.  

A viagem foi divertida e acabei por um tempo esquecendo dos problemas alheios. Comi maniçoba, experimentei um delicioso licor de jenipapo e a noite acabou numa roda de samba. Desde a morte de painho que eu não 

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via mainha tão feliz. Olhei de soslaio para Givanildo e percebi que ele também estava feliz.  

Saí do meio do grupo e fui sentar numa pedra um pouco mais afastada. Fiquei por horas a fio com o olhar perdido nas estrelas. O rosto de Mariana triste e perdido voltou a povoar meus pensamentos. 

Tinha esfriado um pouco, e mainha me chamou para entrar. Ajudei a colocar os bancos para dentro de casa e me dirigi ao sofá destinado para eu dormir. No escuro da sala o sono custava a vir, e passei a rolar pelo pequeno e desconfortável móvel. Por fim, a exaustão acabou vencendo e mergulhei num sono acolhedor.                  

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CAPÍTULO VI   

Quando terminei os estudos foi como se alguém tivesse tirado uma enorme bigorna das minhas costas. Seria eternamente grato pelo apoio recebido do casal Mercês, mas eu ainda não estava muito certo quanto ao meu futuro profissional. A única convicção era da vontade de partir numa daquelas embarcações que atracava diariamente no cais. 

Uma oportunidade irrecusável de emprego, no entanto, acabou por prorrogar esse sonho. Um conhecido de Givanildo me convidou para trabalhar como fiscal de cargas no Porto de Salvador. O salário era muito bom, o que me permitiria morar sozinho. Mainha não iria gostar muito da ideia, mas eu precisava do meu espaço. 

Aquele dia só não foi melhor porque ao final da tarde recebi a notícia do falecimento do Desembargador Mercês, morreu enquanto dormia. Mainha e a Sra. Mercês estavam com os olhos vermelhos e inchados. Olhei para o caixão e tentei chorar. Nenhuma lágrima. A dor era enorme, mas nenhuma lágrima descia. Seria outro Ajé? Vários conhecidos foram chegando para o último adeus ao sisudo Desembargador. 

Fui andando para casa transtornado. De repente começou a chover. A chuva vinha em boa hora para lavar toda aquela tristeza. Uma garota passou correndo por mim. Deveria está com muita pressa, pois nem tinha notado que  algo tinha caído do seu bolso. Abaixando-me, dei conta que se tratava de uma carteira de identidade. Quando finalmente me ergui, não pude mais ver a jovem, já tinha desaparecido pelos inúmeros becos do Pelourinho. Olhando para o documento fiquei surpreso com tamanha coincidência. Tratava-se de Mariana, a irmã de Toinho. Depois de anos, finalmente voltava a encontra-la. 

Estariam morando ali no Pelourinho? Eu me perguntava excitado. Precisava de notícias do meu amigo. Às pressas segui o caminho do Terreiro 

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de Jesus, pois quando os conheci era ali perto que eles moravam. Estava molhado até a alma, mas não dava a mínima tal era meu contentamento. 

A luz estava acesa. Chamei pelo nome de Toinho e ninguém apareceu. Chamei por mais alguns minutos e nada. Já estava me preparando para ir embora, quando ouvi um ruído da porta se abrindo. Era Mariana. Olhou-me sem esboçar nenhuma reação. Com um leve movimento de cabeça ela pediu para eu entrar. 

Ficamos por um longo tempo num tipo de acareação. Lembrei-me da garotinha assustada que tinha visto há alguns anos numa esquina do Comércio vendendo cocadas, mas agora estava diante de uma mulher. Senti algo diferente... Mariana estava diferente.  

O espaço ia além da pobreza monástica, contava apenas com uma mesa de canto e alguns lençóis jogados sobre um velho banco. O vestido molhado de Mariana colado ao corpo deixava à vista os seios enrijecidos. Senti-me com o pênis intumescido. Ela me encarava com os olhos arregalados, os lábios entreabertos, úmidos e brilhantes; as faces sombreadas pelos longos cílios escuros. Perdi a noção de qualquer gentileza, e a empurrei contra a mesa de canto. Levantei seu vestido e notei que ela não usava calcinha. Abrindo o zíper da minha calça, peguei meu membro quente, pulsante e a penetrei. A cada investida violenta minha Mariana gritava desesperadamente. Eu mordia suas costas, puxava os longos cabelos, quando tirei o instrumento de minha virilidade da vagina e o introduzi por trás. Ela remexia de uma forma sensual e gostosa me fazendo enlouquecer. Não aguentei por muito tempo e deixei o gozo jorrar. Com as pernas trêmulas, fiquei ali apoiado nas costas dela.      

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CAPÍTULO VII   

Eu não poderia dizer que meu trabalho era exaustivo, mas exigia bastante jogo de cintura. O porto era frequentado por prostitutas que diariamente iam atrás dos estivadores fazendo propostas de programas. Apareciam vários moleques de rua com estratégias diabólicas para furtar as carteiras dos menos avisados, sem falar nas constantes brigas envolvendo punhais. Não eram essas minhas responsabilidades, todavia, eram fatos corriqueiros que acabavam dificultando na minha função de fiscalização das cargas. 

Como eu tinha previsto mainha não concordou com minha saída de casa, apenas aceitou. Passei a morar num pequeno apartamento no Comércio. Mariana morava comigo. Seu irmão Toinho tinha realizado o meu sonho e partido com uma embarcação ninguém sabe para onde.  

Depois da morte do Desembargador a Sra. Mercês foi morar com o filho em Natal, e como resultado mainha ficou desempregada. No entanto, pelo companheirismo e anos de dedicação junta à família, a Sra. Mercês acabou dando uma grana alta à fiel empregada. Tanto mainha quanto Givanildo estavam decididos a morar em São Félix; iriam comprar uma casa e abrir um pequeno restaurante por lá. Fiquei feliz e desejei boa sorte para os dois. No dia da mudança mainha aproximou-se de mim, fez uma reza  e colocou um contra egum no meu braço pedindo para que eu nunca o tirasse; era preciso deixar sair sozinho. Abraçando-a forte, me despedi sem uma lágrima no olhar. Eu tinha certeza que Givanildo cuidaria bem dela. 

Quando cheguei em casa encontrei Mariana febril e delirando. Fui correndo chamar o Dr. Armando, um médico paulista que estava morando no Comércio não fazia nem um ano, mas que conquistou a confiança de vários moradores. 

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Após os exames de praxe, o Dr. disse suspeitar de apendicite e me aconselhou a leva-la ao hospital mais próximo, o que fiz de imediato. O médico plantonista a mandou direto para a sala de cirurgia. No extenso corredor eu aguardava numa aflição sem fim, apertando meu contra egum com tanta força que os nós dos meus dedos chegaram a doer.  

Acabei dormindo, e acordei sobressaltado quando uma enfermeira tocou no meu braço. Ela me olhava com pesar, então, a resposta à minha pergunta nem era preciso ser dada. Comecei a gritar como um louco no hospital. Gritava por não poder chorar, gritava por ter perdido a mulher amada, gritava por mainha não está naquele momento comigo e por fim, gritava para que me socorressem. Alguns enfermeiros me agarraram para conter minha fúria, foi quando senti uma picada no meu braço e pensei, antes de perder a consciência,  que nunca uma escuridão tinha sido tão bem-vinda.    

            

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CAPÍTULO VIII   

Nasci no candomblé, e de acordo com mainha se fosse traçada nossa árvore genealógica, decerto que a raiz esbarraria em alguma oferenda. Decidi por minha iniciação, não que eu tivesse a pretensão de ser pai de santo e assim abrir uma casa de candomblé. Sinceramente eu tinha como intuito o de me aproximar um pouco mais daquela religião afrodescendente que aprendi a amar desde pequeno. Procurei por mãe Esmeralda de Itapuã para os preparativos e parti para o recolhimento de vinte e um dias. Foi feita a raspagem do orô, e por sete dias seguidos tive meu corpo pintado com efun. Durante o recolhimento realizei os banhos, bori e ebós. Aprendi as rezas, cantigas e danças.  

Durante a Yàwó recebi as devidas homenagens da comunidade e segui os demais procedimentos exigidos durante o ritual. Fui orientado a me vestir de branco por três meses e fazer abstinência de cigarros, bebidas alcoólicas e evitar as saídas à noite, em suma, eram os vícios considerados não salutares. Por um ano permaneci fiel às orientações. 

Já fazia cinco anos que mainha tinha ido embora para São Félix quando apareceu de supetão no porto onde eu ainda trabalhava como fiscal. Continuava linda, mas alguns cabelos brancos se destacavam na ampla cabeleira. Só então lembrei que no dia seguinte teria festa na igreja de São Lázaro. Cingindo-a pela cintura fomos tomar uma limonada. 

Num breve relato fiquei sabendo que o restaurante vinha prosperando e que já estava sendo frequentado por vários  turistas da Europa, e por que não dizer do mundo?. Mainha era a expressão da felicidade. Fiquei tão orgulhoso dela e de Givanildo. Quando terminei meu expediente, peguei sua pequena mala e nos dirigimos ao meu apartamento. 

À noite na minha cama lembrei-me de Mariana, ainda estava muito viva em meus pensamentos. Via-a com seu sorriso encantador que parecia iluminar 

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a capital em um dia nublado, ou enquanto passeávamos pelo Mercado Modelo, e da forma enlouquecedora como ela cravava as unhas em minhas costas enquanto fazíamos amor. Às vezes ela parecia durante um sonho beijando as minhas mãos e me pedindo para ser feliz. Para meu espanto o mesmo sonho passou a se repetir com mais frequência. Eu tentava decifrar aquela mensagem, porém não conseguia entender a simbologia dos beijos em minhas mãos, pois quando em vida Mariana jamais tinha feito aquela demonstração de carinho.   

Consultei mãe Esmeralda de Itapuã. Jogando os búzios ela me disse que as respostas para minhas inquietações estavam todas dentro de mim. Franzindo o cenho deixei claro não ter entendido sua colocação. 

Largando os búzios de lado, mãe Esmeralda segurou firme minhas mãos e começou a apertá-las. E a pressão foi aumentando com tamanha intensidade a ponto de eu não suportar de dor e começar a chorar como uma criança de três anos. E então chorei pela perda de painho, chorei pela morte do Desembargador, chorei por mainha ter partido, chorei pelo óbito precoce da minha amada Mariana e chorei de felicidade por estar podendo chorar novamente. 

Sim, eu precisava ser feliz. O Ajé já estava quebrado. Por derradeiro só poderia desejar paz à Mariana, e que ela seguisse seu caminho em busca da luz.         

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CAPÍTULO IX   

Castro Alves estava certo quando disse que a praça era do povo como o céu era do condor. Se eu pudesse ter uma visão aérea da praça naquele momento de carnaval teria a certeza que veria um mar de gente. Os foliões pulavam ao som do trio elétrico de Dodô e Osmar.  

Toinho tinha retornado de suas viagens além-mar e estava comigo atrás do trio. Era outra pessoa. Em suas aventuras por diferentes portos, acabou conhecendo Dolores do Rio de Janeiro. Negra faceira, olhos amendoados e lábios carnudos; costumava dizer que não levava desaforo para casa e que era a negona do balacobaco da Ribeira, onde vendia acarajé. Nós três nos abraçamos e saímos pulando que nem pipoca ao som da guitarra elétrica de Dodô.  

No dia seguinte saí no cordão do Afoxé Filhos de Gandhy. A emoção era ímpar. Amava o ritmo do agogô nos seus cânticos de ijexá na língua orubá. Eu seguia orgulhoso o trajeto com meu turbante e a linda vestimenta branca à indiana; em uma das mãos segurava com firmeza minha garrafinha de alfazema. 

Ao fim do desfile sentia os pés doloridos, mas nem isso conseguiria tirar a sensação de paz que reinava em mim. Encontrei Toinho e Dolores na Avenida Sete. Dirigimo-nos ao boteco mais próximo, queríamos tomar uma “quente”. A bebida desceu queimando minha garganta, e sem vacilar pedi outra dose. Ficamos de papo até o nascer do sol. Bocejando, Dolores decidiu e ir embora, ainda precisava preparar a massa do acarajé. 

No Elevador Lacerda uma morena me encarou. Estava sozinha e trajava uma saia curtíssima. Nos lábios um batom vermelho... automaticamente lembrei da história de mainha acerca da Pombagira e ri discretamente. 

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Puxando-a pelos pulsos, colei-me a ela. O beijo começou de leve, mas a pressão foi aumentando e os lábios da morena passaram a se mover avidamente sobre os meus. Mordiscando-lhe os lóbulos das orelhas, passei a explorar com ansiedade seu corpo. De repente ouvimos um ruído metálico, e a magia do momento foi quebrada com a chegada do elevador.  

Abraçando-a fomos para meu apartamento.                   

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CAPÍTULO X   

 Eu já estava desanimado e concluindo que o rio não estava para peixe, quando fui surpreendido com uma forte puxada no caniço. À margem do rio Paraguaçu, na cidade de São Félix, fisguei uma enorme traíra. Era meu primeiro São João na cidade de Givanildo. Mainha tinha preparado todas as iguarias juninas. Ao lado do restaurante foi montado um espaço de dança para o forró pé de serra que logo mais começaria. A cidade em peso foi convidada para o forrobodó da noite.  

Ao longe avistei Janaína, a morena do batom vermelho; estávamos morando juntos. Ela trabalhava numa loja de roupas intímas na Barroquinha e era uma excelente companheira. Mainha já tinha começado a cobrar pelos netos. Nós nos esforçávamos sempre que era possível, saliento que as tentativas eram prazerosas, mas a gravidez não vinha. Jana começou a ficar preocupada, pois não usava nenhuma precaução e o tão esperado bebê não era concebido. Eu consolava dizendo que na hora certa ele viria, e que os esforços seriam deliciosos. Ela apenas ria. 

Aproximei-me da cozinha onde Givanildo estava e entreguei o peixe, daria um maravilhoso assado. Fui para o banheiro, pois precisava urgentemente de um banho. Estava sob o chuveiro quando vi a porta sendo aberta; era Jana. Tirando as roupas, juntou-se a mim. A água estava fria e ela soltou uns gritinhos. Em pouco tempo estávamos ofegantes e satisfeitos. 

O forró começou cedo, e os profissionais contratados já estavam preparados com o acordeão, zabumba e o triângulo. Com certeza a festa iria até o outro dia. Tinha licor de todos os sabores, e tanto mainha quanto Jana entravam e saiam da cozinha o tempo todo servindo os convidados. A multidão levantava poeira com a dança no salão improvisado.  

Notei que um homem de tronco largo já estava alcoolizado e discutia com uma mulher que tentava tomar o copo de bebida de suas mãos. Algumas 

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pessoas já faziam roda em torno do casal. O homem começou a esbravejar e deu um empurrão na frágil mulher. Tomei a direção da discussão quando senti a mão de Janaína segurando meu braço numa tentativa de me deter. Encarei-a nos olhos e vi medo. Não compreendi, mas com delicadeza retirei sua mão e atravessei o cordão humano. De longe ainda ouvi mainha chamar por mim. Parei na frente do causador de confusão e solicitei gentilmente que ele se retirasse da festa. Grunhindo, o homem pegou algo na cintura que brilhou na noite; era um punhal. Tentou me acerta, porém fui mais rápido e me desvencilhei. A multidão estava agitada e todos falavam ao mesmo tempo revoltados com a situação criada pelo beberrão. A mulher que o acompanhava tentou convencê-lo a sair da festa, como resposta recebeu outro safanão. Enfurecido avancei contra aquele troglodita, dando-lhe uma rasteira. Com a queda o punhal caiu de sua mão. Assustado notei que o indivíduo tinha se recuperado rapidamente da queda e que já estava com a posse da arma. Ágil como um felino e totalmente transtornado pelo ódio, o grandalhão apontou o punhal contra meu peito. Cegamente me joguei no chão fugindo do golpe, foi quando ouvi um gemido de dor. Sem conseguir acreditar vi Janaína ensanguentada caída no chão; foi atingida no peito ao tentar me defender. O assassino empreendeu fuga do lugar. Abraçando-a contra  meu peito eu pedia a todos os orixás que não a deixassem morrer. Eu chorava desesperadamente. Mainha gritava por socorro, e Givanildo estava estático sem saber o que fazer. A festa foi dada por encerrada. 

Dominado pelo pânico constatei que a respiração de Janaína ia paulatinamente enfraquecendo, até que ela deu o último suspiro e faleceu em meus braços. Fiquei ali por um longo tempo agarrado ao corpo sem vida. Sentia-me sem forças e desamparado. Um inesperado arrepio percorreu meu corpo, era como se eu fosse um condenado a caminho da forca.     

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EPÍLOGO   

A enorme embarcação ia avançando lentamente pela Baía de Todos os Santos. Da popa eu tentava registrar cada paisagem que me era familiar e que aos poucos ia ficando para trás. O mar estava tão azul quanto o céu naquela tarde de verão. Acomodei-me num banco e estendi minhas pernas, cruzandoas nos tornozelos. Procurei por meu isqueiro no bolso da camisa, o cigarro tinha se tornado em meu fiel companheiro. Acendo-o, segurei por entre os dedos.  

No fundo eu sempre soubera que aquela viagem surgiria, mas nunca sob circunstância de  extrema solidão. Puxei a aba do velho boné  até os olhos, fechando-os,  e  me encostei pensativo junto ao costado da embarcação. 

Para onde eu iria? Essa era uma incógnita, talvez a parte mais excitante da longa viagem. Lançar-me-ia no além-mar em busca de novas descobertas. Em cada porto um novo encontro seguido de uma dolorosa despedida. Vidas que se encontram numa troca recíproca de valores e experiências. Não há como negar esse dialogismo universal que na maioria das vezes nos faz meros coadjuvantes nessa aldeia global. 

Levantei-me de um salto e fui jogar o cigarro ao mar. Começava a escurecer e algumas estrelas já despontavam aqui e acolá. Veio-me à memória época de uma infância feliz em que na companhia de Toinho corríamos como loucos por entre os comerciantes do Mercado Modelo, e ao final exaustos, pegávamos um barco em direção ao Forte de São Marcelo. Lá nos estendíamos no chão, entre gargalhadas, sob um céu estrelado. 

Mesmo diante das situações mais insólitas há a necessidade de erguer a cabeça e seguir marchando entre risos e lágrimas. Já dizia um escritor que para nascer é preciso destruir o mundo. Sim, sempre acreditei que havia uma misteriosa proximidade entre o Ayié e o Orún. Desse modo, cada indivíduo em 

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algum momento de sua vida teria que sair da  zona de conforto para enfrentar seus maiores fantasmas; talvez funcionando num esquema de moeda de troca. 

Não muito distante ouvi um senhor tossir de forma insistente. Olhei obliquamente e notei que ele estava enrolado num trapo e cabisbaixo. Aproximei-me oferecendo meu canil com água. A mão idosa agarrou a garrafa com avidez, levando-a em seguida aos lábios ressequidos. Agradeceu-me humildemente erguendo a cabeça. Comecei a estremecer no mesmo instante em que o fitei. Mesmo maltrapilho e envelhecido pelo tempo, reconheci os traços de painho! Seria um fantasma? Um Ajé? Afastei-me assustado. 

Minutos depois fiquei sabendo por um experiente marinheiro que aquele taciturno velhinho, tinha sido essa a expressão usada, já fazia aquela viagem sozinho há muitos anos,  e que boatos davam conta que ele tinha perdido a memória em um acidente marítimo ao qual tinha conseguido sobreviver. 

Sim, entre risos e lágrimas é preciso se reinventar. Agradeci ao marinheiro pelas preciosas informações e fui reencontrar meu pai.   

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

NÃO FUI A WOODSTOCK

 

Prólogo   

    Chovia copiosamente naquela noite fria de 1974. O pêndulo do relógio marcava meia-noite, quando a penumbra do quarto foi cortada momentaneamente pelo clarão de um belo isqueiro. Acendendo seu último cigarro, Clara deu uma longa tragada depositando-o em seguida no cinzeiro. Uma lufada fria penetrou pela fresta da janela quebrada, fazendo-a encolher-se sobre a poltrona; o frio era aterrador e o sono custava a vir. Longinquamente ouvia-se o uivar de cães. Levantando-se abruptamente, dirigiu-se à janela da sala. Morava no terceiro andar de um velho sobrado do início da década de vinte. Abaixo de sua janela havia uma enorme amendoeira, o que a impedia de ter uma visão mais ampla do saguão de entrada. Uma tênue claridade era vista de um dos cômodos da casa de pensão que  ficava na esquina da rua, a antiga proprietária, uma senhora gorda e de feição taciturna, fora acometida por um derrame fatal, deixando para a única parente, uma prima avarenta e caquética, a função de administrar os negócios. 

    Resoluta, Clara decidiu voltar ao quarto. Por uma fração de segundos  sentiu sua respiração entrecortada e um medo gélido paralisá-la. Alguém forçava violentamente a maçaneta de sua porta. Trêmula, recostou-se junto à parede próxima à escrivaninha, e lembrou-se do misterioso assassinato que ocorrera há alguns meses em um bairro adjacente; a vítima fora totalmente mutilada a golpes de facão pelo homicida. Espasmos recrudescentes sacudiram-lhe o corpo. Imagens caleidoscópicas e vagas de sua infância sobressaltaram-na, como da época em que o irmão a amedrontava com uma máscara carnavalesca. Um  forte estrondo na porta, despertou-a do breve devaneio, atônita e coagida começou a soluçar. De repente, começou a ouvir vozes vinda do andar inferior. Assustada, percebeu que do outro lado, um diálogo ininteligível  era travado entre seus possíveis algozes. Naquele  momento era  única moradora do sobrado, e a senhoria, a Sr.ª Hoffmann estava em viagem ao interior da cidade. Arrastando-se mecanicamente pelo assoalho chegou ofegante ao quarto; de soslaio, avistou um rato que sorrateiramente atravessou o canto da cômoda. 

     Lá fora a chuva insistia em cair torrencial. Apoiando-se em uma cadeira, ergueu-se com dificuldades; pegando o cigarro soltou uma longa baforada. Neste ínterim, percebeu que o alvoroço de vozes havia se extinguido e passos eram ouvidos se afastando pelas escadas. Soltando um longo suspiro desmoronou sobre a cama. “Talvez fosse o momento de bater em retirada... sinto-me na tênue delimitação das próprias forças, e irremediavelmente desolada. Até quando conseguiria viver na clandestinidade?” Pensou consigo resignada. Todos seus antigos companheiros que magistralmente protestaram, expondo-se através de severos movimentos de oposição contra o aparelho repressor usado pela ditadura, já tinham sidos assassinados covardemente com requintes de crueldades. A luta pela democracia, naquele instante, parecia-lhe bastante distante. 

    Seus lindos olhos azuis estavam cravados no teto, quando a porta da sala foi estrondosamente arremessada ao chão...               

Capítulo I   

-Venha Clara! 

 Lembro-me como se fosse ontem daquela tarde ensolarada em que minha mãe me chamara de forma tão enérgica. Eu contava então com meus tenros sete anos. Aquela voz soara sempre num timbre austero, e tinha o poder assustador sobre mim. Transpus a pouca distância que nos separava em frações de segundos. Ofegante, deparei-me com um par de olhos inquisitivos e inflamados de ódio. 

Minha mãe sempre fora uma incógnita. Seu semblante costumeiramente hostil e taciturno lhe reservara sulcos profundos na face; aparentava mais idade do que realmente tinha. Fora uma mulher indubitavelmente triste. Nunca consegui atravessar aquela ponte enorme que nos separava. Quanto à existência do meu pai, eu a compreendia como aquelas figuras dos quadros de temática surrealista. Minha história  estava repleta de lacunas fantasmagóricas. 

Como de praxe ela trajava um vestido ordinário de chita estampado, e aos pés um chinelo velho de dedo. Puxando-me pelo braço esquerdo, pôs-me ao seu lado. 

- Então você é a pequena Clara?- A pergunta vinha dos fundos da nossa minúscula casa. 

Intrigada, fitei demoradamente aquela figura feminina de postura imponente que surgia na minha frente. Seus olhos verdes penetrantes deixavam transparecer solicitude. Senti-me retraída e procurei fixar meus olhos num ponto perdido no chão. Abaixando-se, a desconhecida passou as mãos por meus cabelos num gesto de carinho que até então eu desconhecia. Ela falara algo que soara inaudível, mas seu hálito era morno e  lembrei-me do aroma de canela. 

- Fale com a moça Clara! - Gritara minha mãe irritadiça. 

Mesmo de longe consegui vislumbrar Zara, minha boneca feita de trapos; encontrava-se fincada no arame farpado de nossa cerca - “ Gostaria de apertála contra meu peito e não me sentir tão amedrontada” - Pensei entre lágrimas. 

Paulatinamente fui erguendo meus olhos e encarei aquela mulher que algum dia me gerara, mas não a reconheci. Era um ser desprovido de qualquer tipo de sentimento, e eu reconheci isso com  uma dor profunda. 

- Garotinha infernal! - Ouvi-a esbravejar por entre os dentes - Você vai ver como é que se obedece a um adulto - A essa altura ela já levantava a mão na minha direção. 

 Para minha própria surpresa, não procurei fugir daquele ato de violência da qual costumeiramente me tornara alvo. Apenas fechei os olhos involuntariamente e permaneci estática, esperando o inevitável tapa na face. Entretanto, braços delicados me ofereceram proteção. A carga de emoção que esse gesto promovera em mim, fora mais surpreendente que o provável ato de fúria da minha mãe. 

Estendendo-lhes meus lânguidos braços fui erguida e acolhida carinhosamente. No colo daquela mulher estranha comecei a me sentir mais forte. Da altura em que eu me encontrava, senti uma sensação de empáfia, e sorri ingenuamente. Olhei com ar de despedida para aquele cenário de pobreza que por sete anos estivera inserida. No meu íntimo, intuitivamente eu sabia que era dada a hora da partida.         

Capítulo II   

O diminuto soutien me sufocava! Era um número menor que o meu, mas na falta de algo melhor, seria com ele que eu teria que me virar. Uma lamparina de parafina  no canto do único cômodo da choupana, lançava uma luz amarela e pálida sobre minha imagem refletida no espelho. O vermelho intenso do batom era o que mais se destacava no meu rosto magro e de ossos proeminentes. Uma cascata de cabelos negros caia delicadamente sobre meus ombros delgados. Os olhos de um azul límpido permitiam antever angústia e revolta. Um longo ronco no meu estômago me fez lembrar que há dias não me alimentava bem. Eu sentia uma fome voraz, e aguardava Paulo com bastante ansiedade. Em poucos minutos um assovio familiar acabou por me tranquilizar, finalmente Paulo chegara.  

Ele ainda conservava o mesmo sorriso cativante de quando o vira pela primeira vez. O breve sorriso, no entanto, não conseguia disfarçar seu nervosismo, pois ao deixar o pequeno embrulho contendo pão e uma garrafa térmica com café sobre a mesa, passou a esfregar freneticamente as mãos nos bolsos da calça. Eu me sentia profundamente culpada por tê-lo envolvido numa situação tão comprometedora. 

Desde que eu deixara o estado de Santa Catarina para cursar Direito em São Paulo, que não o via. Eu sempre tivera o espírito perquiridor, e a efervescência das grandes cidades me seduziam. A região do Alto Vale era bastante acolhedora, mas eu queria me enveredar em novas conquistas; sentia que tinha o mundo todo em ebulição dentro de mim. Os burburinhos constantes que eu ouvia sobre pessoas desaparecidas por abraçarem um ideal de liberdade, apenas fomentavam a minha partida.  

Paulo não mudara muito. A barba por fazer e os cabelos em desalinhos, davam-lhes um charme bastante peculiar. A tez branca contrastava com os olhos negros profundos e perspicazes. Havia uma cicatriz no supercílio esquerdo, adquirida com uma queda do telhado aos doze anos; eu lembraria sempre 

daquele episódio. Ele era um homem de beleza singular. A nossa separação havia sido bastante dolorosa, e por seu olhar oblíquo, ficava evidente  que algumas lembranças não foram superadas. 

- Quero agradecer pela permissão de me refugiar em suas terras – Tentei quebrar o gelo. A última vez que falara com ele fora por telefone – Não ficarei mais que uma semana. – Minha voz saíra fraca, me traindo. 

- Fique o tempo que quiser Clara – Falou Paulo aproximando-se de mim – Peço desculpas pela falta de conforto, mas foi a única coisa que consegui longe dos olhares indiscretos – Neste momento suas mãos seguravam meu rosto, erguendo-o com delicadeza - Não sei em que práticas subversivas você anda envolvida, entretanto, gostaria que soubesse que sempre estarei do seu lado independentemente da situação – Percebi seus olhos úmidos ao fitá-lo demoradamente. 

Sempre haveria aquela carga de emoção em nossos encontros, e eu,     forçada pelas circunstâncias extremas, tendo que abandonar aquele homem solícito e viril. A militância política promovia esses suplícios...     

         

Capítulo III   

  Além de uma mãe aplicada e amorosa, ganhei também um irmão atencioso e amigo. Ele era cinco anos mais velho que eu; juntos compartilhamos momentos de cumplicidades e descobertas de sentimentos fraternos. Nunca fui tão feliz. 

A propriedade da família era tão extensa que se perdia de vista com seus verdes pastos. A paisagem era dominada por eucaliptos e araucárias, todavia, a principal atividade econômica versava na criação de gados tanto para o abate quanto para a produção de laticínios.  

De colonização germânica, a região tinha o idioma alemão como língua de forte influência nos constantes diálogos entre os colonos dos interiores. Os almoços regados com fartos pratos à base de carne suína e derivados retratava bem a descendência da população local.  

Os longos e rigorosos invernos passávamos  ao pé de um enorme fogão de lenha, mantido por minha mãe num amplo rancho que servia de cozinha contígua à casa principal. O chimarrão tornava-se amigo inseparável durante a fria temporada. 

Nossa propriedade fazia divisa com a da família Feurbach, um fleumático casal que fixara raízes na região havia dez anos migrando do Rio Grande do Sul. Eles tinham no único filho, o pequeno Paulo Feurbach, uma verdadeira adoração, pois foram várias as tentativas frustradas para a Sra. Feurbach engravidar após o casamento. Vinte anos depois, já sem esperança de serem abençoados com uma criança, é que o robusto e saudável bebê viera ao mundo. Tínhamos a mesma idade, e nossa amizade se deu espontaneamente e com a assustadora velocidade da luz. 

Minha mãe perdera o marido dois anos após o casamento em decorrência de febre tifoide. Com bastante determinação e afinco criara o irrequieto Egon, fruto do lindo e breve relacionamento. A mesma garra a fizera  conduzir  a propriedade 

com pulsos fortes, pois vários eram os serviços e limitado o número de empregados. A responsabilidade era incomensurável e exigia o máximo comprometimento da parte dela. 

Tive a oportunidade de ser alfabetizada numa tradicional escola de dogma católico, em contrapartida, a rigidez das irmãs e  os árduos sermões, começaram a delinear os primeiros traços de uma insatisfação peculiar que me afligia mediante situações que eu considerava injustas. 

Só me sentia realmente livre quando estava em companhia do meu irmão e de Paulo, correndo por entre as árvores de salseiros ou subindo nos pés de jabuticabas. Eram tardes deliciosas de domingos se banhando num ribeirão que atravessava a propriedade. Para fechar com chave de ouro esses encontros, ainda havia a longa e dolorosa expectativa pela deliciosa cuca de queijinho que seria servida no café da tarde.  

Posso falar com toda autoridade que fui muito feliz nestes momentos de descontração e ingenuidade.             

Capítulo IV  

Havia bastante sangue no espaldar da cadeira que costumeiramente eu utilizava para os estudos. Acabara de chegar da universidade, e o estado do pequeno quarto que compartilhava com uma estudante de Engenharia era deprimente. Os escassos móveis que possuíamos estavam fora do lugar, e por todos os lados livros espalhados. Maria Helena era proveniente de Sorocaba e militante ferrenha contra a ditadura. Constantemente demonstrava seu repúdio exacerbado ao sistema estabelecido através de passeatas, e mostrava bastante orgulhosa uma cicatriz  que possuía no abdômen em decorrência de um tiro em conflito com a polícia. Pertencia a um grupo de contracultura que se reunia todas as noites em lugares distintos, e quase sempre angariando um número expressivo de simpatizantes à causa revolucionária. 

Onde estaria Maria Helena? No meu íntimo não restavam dúvidas que ela fora levada pelos agentes do DOI. Vários dos meus amigos tinham sofrido torturas desumanas durante os intermináveis interrogatórios no DOPS. Os que não estavam desaparecidos apresentavam quadros de esquizofrenia.  

Meu ódio era absoluto contra o plano de fundo político de intolerância e truculência propagada pela ditadura. Como comungar com tanto despotismo? Abaixo a repressão bandos de filhos da puta! Macularam nossa pátria com sangue de inocentes. 

Pegando minha mala que estava jogada no canto esquerdo da cama, comecei a jogar às cegas algumas peças de roupas. Encontrei alguns livros do meu curso de Direito rasgados. Quando a justiça seria feita? Pensei desolada. 

O dia estava bastante quente e abafado. Olhando o delicado relógio de ouro, presente que ganhara da minha mãe, constatei que já passava das 14h. Colocando a mala no banco traseiro do meu fusca 1966, dirigi à casa de Rodolfo. 

Eu conhecera  Rodolfo no primeiro ano de faculdade perambulando pelos corredores do prédio. Ele cursava Filosofia e nutria uma paixão ímpar por seu violão. Os cabelos longos e encaracolados em conjunto com as roupas rasgadas, 

criavam a caricatura de um rebelde sem causa, entretanto, a verdade era bem outra, possui um forte senso de justiça. Era o mais velho dos três irmãos e sonhava em visitar a Grécia. 

A casa ficava a duas quadras da minha. Morava sozinho, preferia manter a privacidade, confidenciara uma vez para mim. Chamei de plenos pulmões e nada. Segurando na maçaneta da porta, notei que a mesma não estava trancada. Entrei. A voz rouca e inconfundível de Janis Joplin com seu rock psicodélico vinha da vitrola. O ambiente estava impregnado do forte odor da marijuana. Numa cama de campanha posta inusitadamente na área de serviço, encontrava-se um Rodolfo em sono profundo. Sua relação com o baseado era bastante estreita. Esperaria até ele recuperar a consciência...                 

Capítulo V  

   Até os treze anos de idade minha relação com a morte fora mantida a uma distância bastante considerável. Essa afirmativa, no entanto, não descartava a possibilidade de se ouvir que fulano ou beltrano havia falecido na região. A questão central era que essas pessoas não pertenciam ao  meu nicho familiar. Eis que num outono cinzento ela surgiu com sua dança funesta e gargalhadas agudas. 

Neste dia eu acordara indisposta, e por recomendação materna fui orientada a permanecer na cama. Como fazia bastante frio, acabei por deslizar  entre as cobertas e voltei a dormir. Foi um sono agitado  por um pesadelo onde eu aparecia sendo devorada por uma barata gigante, e num outro momento várias aves de rapina sobrevoavam nossa casa. Despertei assustada. 

Um pouco tonta pela indisposição que ainda continuava, fui andando trôpega até a cozinha procurar por minha mãe. Ela estava fazendo compotas de morangos, e me lançou um olhar reprovador por estar descalça. Aproximei-me e a abracei pela cintura. Como era gostosa aquela sensação de proteção! Sacudi levemente a cabeça na tentativa de exorcizar os fantasmas. 

Gritos de dor e desesperos vinham de fora. Um mau presságio apoderouse de mim e inevitavelmente, lembrei-me das aves de rapina. Minha mãe me olhava fixamente, foi então que notei seus olhos velados pelo pânico. Senti meu corpo lânguido e febril. Não me movi. Os gritos continuavam agudos e cada vez mais próximos. Permaneci estática por alguns segundos. Estava petrificada pelo medo.  A porta foi escancarada e dois empregados pálidos e assustados, pareciam atônitos em nos dizer algo. Logo adiante era possível ver outros empregados num alvoroço em volta de um jovem corpo estendido no chão. Perdi a consciência. 

Durante alguns anos aquelas aves de rapina tinham tirado meu sono. Todavia, com o tempo aprendi a contornar a situação, e passei até mesmo a dialogar com elas na escuridão. 

O difícil fora aceitar a morte prematura do meu querido irmão. Como doía aquela perda. Quantas noites passei em claro tentando digerir a triste e dolorosa realidade. Minha mãe se agarrara em mim como se eu fosse um bote salva-vidas. 

Chorei por uma longa temporada e numa angústia profunda procurei conforto nos ombros do meu inseparável amigo Paulo, e de forma carinhosa ele tentava me acalentar. Aos poucos a dor foi diminuindo e a saudade aumentando, mas a imagem do jovem corpo esmagado por uma árvore perduraria por muitos anos, pois no fatídico acidente meu adorado irmão auxiliava um dos empregados na derrubada de um cedro.                   

Capítulo VI  

“Doce caverna”, a república que passei a morar era um verdadeiro celeiro de variações linguísticas. Uma das cláusulas contratual era concernente à aceitação de estudantes apenas do sexo feminino. Éramos seis garotas de diferentes regiões do país e que compartilhávamos da mesma frustração de não termos ido ao Festival de Woodstock. Havia a baiana Aline que cursava Química, e sua paixão era tanta pelo mundo das partículas atômicas, que todas nós passamos a chamá-la de Srta. Rutherford. Com “doutorado” na cozinha, pois seus pratos eram magníficos e tal título não seria uma afronta à ordem e os bons costumes, a mato-grossense Heloisa estudava Matemática, e comumente dizia que só conseguia assimilar os conteúdos colando todas as fórmulas pelas paredes do quarto. As gêmeas Maria Luiza e Bárbara estavam no segundo ano de Sociologia, tinham deixado o estado do Pará com o intuito de seguir os passos do Claude Lévi-Strauss, por quem nutriam admiração. Já a mineira Ana Beatriz, assim como eu optara por Direito. O café da manhã, única refeição compartilhada por todas, era regado com divertidos sotaques. 

Durante a convivência, tornou-se notória nossas afinidades por um ideal de liberdade e justiça. Não aceitávamos a censura com sua castração ideológica, tampouco a falta de informação sobre os desaparecidos políticos. Unindo forças, optamos pela criação de um movimento apartidário, que na sugestão da mineira Ana Beatriz, e por aprovação majoritária, passou a se chamar Liga da Justiça. Em prol da causa participávamos de passeatas da UNE, elaborávamos cartazes de protestos, sendo que uma das práticas mais constantes era a pichação de prédios públicos com frases de ordens. Eram momentos únicos de adrenalina e subversão. Foi durante este período que desenvolvi o hábito de fumar. 

Os estudos exigiam um comprometimento cada vez maior de mim, e com total desprendimento de energia eu mergulhava no saber jurídico. Mesmo que o Brasil estivesse passando pela via-crúcis da ditadura, onde práticas de torturas medievais eram legitimadas por atos institucionais arbitrários, optei em continuar acreditando que a democracia seria estabelecida, ainda que a resposta ao regime acarretasse em exílios e assassinatos. Muitos dos meus amigos me rotulavam de 

ufanista, mas independente do clichê, eu comungava com o postulado de Rudolf von Ihering quando ele afirmava em uma das suas obras que “o fim do Direito é a paz.” E por que não acreditar na paz? A crença de que um dia ela seria estabelecida é que fortalecia minha luta contra a repressão. 

A liga da justiça aos poucos foi aceitando a adesão de vários outros sectários. De repente eu me via na liderança de um movimento que ganhava proporção colossal. Havia excitação e expectativa em todos nós. Alguns rostos eram conhecidos, a exemplo das meninas da república, do Rodolfo e outras pessoas da faculdade, mas a grande massa era totalmente desconhecida do meu ciclo de amizade.  

O pavio fora aceso, apenas nos restava a militância mais contundente. Por força do ofício passei a viver na clandestinidade e armada. Não tinha como retroceder daquele ponto.               

CAPÍTULO VII  

A primavera chegara com todo seu esplendor, e com ela, os inconfundíveis perfumes das rosas. O convite para se aventurar pelos resquícios da Mata Atlântica era irresistível, dado que nossa propriedade contava curiosamente com algumas cavernas indígenas cavadas num paredão, e o toque todo especial de uma belíssima e refrescante cachoeira. Os vizinhos mais próximos costumavam dizer que nós morávamos no paraíso, e eu particularmente tinha que concordar! Após selar  Maneca, meu cavalo favorito, pus-me a cavalgar pela bela paisagem. Eu aprendera a amar cada cantinho daquele lugar encantador, entretanto, em poucos meses estaria de partida para São Paulo, iria em busca dos meus ideais de vida. A saudade seria incomensurável das amizades constituídas, e pelas quais eu tinha um grande apreço, mas eu sentia que precisava encarar uma nova etapa na minha vida, e mediante tal possibilidade, cada centímetro do meu corpo vibrava de emoção. 

Após as exaustivas e frustradas tentativas de demover a minha decisão de partir, minha mãe acabara por decidir pelas vendas dos bens e ir de mudança para Londrina, onde morava o único irmão. Achei ótima a medida tomada por ela, afinal, eu não tinha pretensão alguma quanto a voltar a morar na região novamente, tampouco, gostaria de deixá-la sozinha e distante de mim.  

Pondo Maneca no pasto, optei por caminhar descalça sobre a relva úmida. De longe avistei um casal de quero-quero num voo rasante à margem do ribeirão. Uma suave brisa jogou minhas longas madeixas para trás. O dia estava lindo e de clima agradável, continuei com meu passeio por entre os pés de eucaliptos. Lembrei-me da minha antiga casa na árvore, e segui em outra direção. A ideia de construí-la partira de minha mãe quando eu tinha nove anos; ela argumentara na época que eu precisava de um lugar só meu, mas verdade seja dita, que a maior parte do tempo eu brincara na casinha fora com Paulo. Fazíamos de conta que éramos selvagens e que tínhamos conquistado uma moradia. Ríamos muito com essas aventuras pueris. 

Há anos que deixara de frequentar a casa da árvore, pois trazia lembranças de uma infância feliz ao lado do meu irmão que ajudara a projetá-la. Enxugando uma lágrima que insistia em deslizar por minha face, segurei firmemente na corda, e subi pela escada engendrada. O estado era o mesmo desde a minha última visita. Havia algumas fotos de recortes de revistas dos Beatles e de Elvis Presley coladas nas paredes. Uma velha esteira estava jogada num canto, pegando-a, bati contra a parede de fora retirando a poeira. Abrindo-a no centro da casinha, acabei por ficar ali sentada abraçada às minhas próprias pernas, e perdida em pensamentos vagos. Um estalido estranho acabara por chamar minha atenção para o vão de entrada. Era  Paulo. 

Não consegui vislumbrar a criança que até pouco tempo brigava comigo por causa de uma bola. Eu estava diante de um homem de músculos definidos e sedutor. Ficamos sem pronunciar uma única palavra, mas nossos olhos diziam tudo. Então, as lembranças dos meus sete anos e o momento da despedida de minha mãe biológica vieram à tona. Era chegada a hora de dizer adeus também ao Paulo. 

Levantando-me, segurei-lhe as mãos. Nossas bocas se uniram numa ânsia instantânea de frenesi. Era um sentimento latente que inusitadamente despertava numa fúria louca. Senti seu sexo rijo junto à minha coxa, quase desfaleci de desejo. Abaixando-se, Paulo retirou com certa impaciência meu short e minha calcinha. Senti-me um pouco envergonhada por estar seminua diante dele, mas Paulo acabou por tirar as próprias roupas, e levou-me até à esteira. 

Fora naquela tarde de primavera, na casa da árvore, que descobri as delícias do sexo, as juras de amor e o grande pesar de dizer adeus a quem se ama.      

CAPÍTULO VIII  

   - Aqui Clara! Por aqui! Tente virar à esquerda. 

Eu estava desnorteada e tentava desesperadamente seguir as instruções daquela voz. A tarefa ganhara uma faceta bastante árdua em meio aos bombardeios e gritarias. A polícia montada, juntamente com os demais militares, tentava dispersar a multidão lançando bombas de gás lacrimogêneo. A praça estava tomada pela fumaça, e eu sentia meus olhos arderem e a garganta seca. Não conseguia enxergar com clareza, mas procurei me afastar o máximo que podia do território de conflito. Sob meu cardigã senti o cabo da minha pistola Luger, e passei a correr com mais firmeza. Parei por alguns segundos em busca de ar, meu peito doía pelo esforço da corrida. Não muito distante ouvi a sirene de um camburão que patrulhava a área, e decidi retomar a fuga. Com certa dificuldade consegui transpor alguns obstáculos, e alcancei um terreno baldio apinhado de contêineres de lixos. Contornando alguns deles, acabei por me esconder entre um vão formado pela sobreposição de metais retorcidos. O odor era nauseante, mas tive apenas que pensar na minha própria sobrevivência para superar qualquer mal-estar. Assustada, ouvi um ruído de motor aproximando-se. A luz alta do farol cegou-me momentaneamente, entretanto, consegui distinguir algumas pessoas sendo retiradas violentamente do carro, e forçadas a se ajoelharem no chão. Em seguida três estampidos de arma de fogo ecoaram na noite, e vi nitidamente quando os corpos tombaram inertes. Do meu esconderijo sufoquei um grito de pânico e dor, pois fora traumatizante presenciar aquela cena de execução sumária. Com a mesma velocidade que o carro chegara, ele também partira. Por segurança permaneci escondida. Após um longo intervalo de tempo é que decidi sair do lixão. Aproximando-me dos cadáveres, parei estarrecida reconhecendo os corpos da Srta. Rutherford e das gêmeas do Pará. Com a voz embargada pelo choro me despedi das ex-companheiras da “Doce Caverna”. 

Meu estado era deplorável, pois minhas roupas estavam rasgadas, sujas e eu fedia horrores. Mecanicamente comecei a perambular sem destino por lugares ermos e insólitos, mas procurando sempre me manter na escuridão como forma de precaução. Mentalmente comecei a cantarolar um refrão da canção do Geraldo 

Vandré “ Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer...” A imagem das minhas amigas assassinadas me angustiava tremendamente. “Aqueles bastardos executaram minhas amigas!”, eu repetia como um mantra enquanto andava sem destino. Um corcel passou por mim em alta velocidade, em contrapartida tudo continuava no mais absoluto silêncio. De repente, braços fortes me puxaram para um beco e uma mão tapou minha boca. Comecei a me debater freneticamente. 

- Calma Clara! Sou eu, Rodolfo. 

Entre surpresa e amedrontada, acabei por abraçá-lo desabando num choro  compulsivo. 

- Precisamos nos afastar daqui o mais rápido possível  – falara  Rodolfo numa visível  agitação. 

- Eu já sei para onde ir – respondi lacônica.              

CAPÍTULO IX  

A primeira impressão que eu tivera ao chegar a São Paulo fora de admiração e estupor frente à aglomeração e a diversidade cultural das pessoas pelas ruas, haja vista minha procedência provinciana. Os enormes arranha-céus me encantaram pela ousadia arquitetônica e a selva de pedra que em conjunto formavam.  

Ao descer na rodoviária eram poucos os meus pertences, pois decidira trazer apenas duas malas e muitos sonhos a serem realizados. Pegando-as, direcionei-me a um taxista, eu tinha em mãos o endereço de uma antiga amiga de minha mãe que ficara com a incumbência de providenciar minhas acomodações. 

A pensão, que a nobre senhora conseguira para mim, tinha uma ótima localização e era frequentada predominantemente por estudantes, sendo que uma vez ou outra apareciam alguns profissionais liberais para o pernoite. Próxima ao meu quarto havia uma paulista da cidade de São José do Rio Preto, douta nas ciências jurídicas, objetivava ferozmente em advogar na área criminal. Seu nome era Thalita, e em pouco tempo, justificada talvez pela minha carência familiar, vime dependente da sua  amizade.  

Certa manhã, faltando um mês para o início das aulas do tão sonhado curso de Direito, acordei com ânsia de vômito e os seios doloridos. O primeiro pensamento fora de ligar para minha mãe, mas reconsiderei a ideia uma vez que poderia ser algo sem importância, e deixá-la preocupada sem motivo não me pareceu conveniente. Um enorme espelho com detalhes rococós nas extremidades ficava numa das paredes do quarto, e parando em frente a ele tirei minha camisola. Notei os seios inchados e que meu ventre estava levemente proeminente. Fora como se um balde de água fria despencasse sobre minha cabeça. Eu estava grávida! Apavorada com a óbvia constatação voltei a deitar na estreita cama. Meu estado era de total desespero e incredulidade. O que seria de mim? Grávida, sozinha e às vésperas das aulas? Automaticamente lembrei de Paulo e tentei imaginar qual seria sua reação caso soubesse que eu carregava seu filho no ventre. Provavelmente adoraria a notícia, e a julgar pela educação 

familiar que recebera proporia casamento. Minhas conjecturas estavam carregadas de romantismo, mas o contexto era outro e aquela criança não fora planejada, e ainda seria um empecilho para o que eu estabelecera como prioridade para os próximos anos! Vesti às pressas uma jardineira e fui à procura de Thalita, que surpresa com meu relato acabara por sugerir taxativamente que eu fizesse um aborto. Concisa contou-me que sua prima, a estudante de Engenharia Maria Helena, conhecia uma mulher que poderia fazer o serviço. Finalizara o assunto dando-me garantias que o ambiente era de segurança, discrição e que no final tudo daria certo. As lembranças se esvairiam no tempo, dissera-me numa gargalhada sarcástica.  

Cinco dias depois o sórdido serviço fora realizado, e um enorme vazio se apoderara de mim. Que espécie de pessoa egoísta eu me tornara? Por que não compartilhara a notícia da gravidez com  minha mãe ou com o próprio Paulo? Eu receberia apoio irrestrito de ambos, pois eles me amavam incondicionalmente e a recíproca era verdadeira! Minha conduta fora leviana, covarde e mostrava uma faceta desprezível que até então nem eu mesma conhecia. Profundamente envergonhada, peguei minha bolsa e saí daquela pseudo-clínica. 

Ao chegar à pensão senti uma tensão lúgubre no ar, e muitos dos moradores estavam cabisbaixos e chorosos. Thalita fora encontrada morta à margem de uma rodovia, e seu corpo apresentava marcas de torturas e abuso sexual.  Somente com a sua morte é que eu fora descobrir que ela era membro de um grupo de ativistas comunistas. As aves de rapina estavam sobrevoando a área. 

Ainda que fosse dolorosa a sequência da receptividade, estas foram as ordens dos fatos ocorridos desde  minha chegada à cosmopolita cidade.      

EPÍLOGO  

  Da janela do seu escritório de advocacia localizado na Avenida São João, Clara observava absorta a passagem de alguns transeuntes que eufóricos comemoravam a Lei da Anistia. “Os filhos expatriados finalmente recebiam os salvos-condutos, bandos de dissimulados!” Pensou a contragosto – Explodindo numa fúria incontida, Clara bate com os punhos fechados sobre a mesa de mogno.  

A lei que concedia o perdão político aos que de forma indômita e visceral combateram arduamente as práticas arbitrárias dos militares, seria a mesma que beneficiaria os tiranos, ou seja, a lei nascia eivada de interesses putrefativos. “ Mas como esquecer das mazelas dos anos de chumbo? Quantos amigos queridos tinham morridos ou desaparecidos? Os bárbaros assassinos sairiam incólumes?” Eram perguntas que Clara sabia que não obteria respostas, mas se reservava ao direito de questionar os meandros de aprovação da lei capciosa. 

Dirigindo-se até à copa pegou uma xícara de café. Sorvendo o fumegante líquido, lembrou-se da aterrorizante noite fria em que foi surpreendida com a visita tempestiva de sua mãe acompanhada de Paulo e de outros três conhecidos, que a resgataram do estado de coação em que se encontrava no velho sobrado da década de vinte. 

Ainda que cada molécula do seu corpo vibrasse de indignação com a falta de liberdade de expressão e tantas outras limitações impostas pelo regime, Clara optara por continuar com uma atuação menos contundente, pois tinha cansado de bater em pontas de facas. Reconhecia-se como uma desertora do ideal revolucionário apregoado pela Liga da Justiça, mas sua mãe havia implorado com lágrimas nos olhos que ela se afastasse da linha de frente do combate. “Covarde”, essa fora a palavra que lhe viera à mente no dia em que devolvera a pistola ao Rodolfo, e assumira o papel de coadjuvante. “Às vezes precisamos abdicar de certas atitudes para não machucar quem amamos”, ponderou decidida.  

Dois porta-retratos decoravam sua mesa do escritório. Num deles Clara aparecia sorridente abraçada à mãe na festa de graduação. O outro retrato era mais recente, datando apenas de dois anos atrás quando contraíra matrimônio 

com  Paulo. “Apesar dos percalços, tinha conseguido realizar três grandes sonhos!” – refletiu Clara acariciando o volumoso ventre. 

O céu naquele dia estava bastante nublado anunciando a forte chuva que logo desabaria sobre a cidade, entretanto, o mais importante era que não havia nenhum 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Elucubração


Eu tirei essas fotos hoje, 17/02/2017 às 12h33min. Representando uma prática muito comum: a vó levando a neta à escola. Logo depois de registradas as fotos no celular, fiquei por alguns minutos, fitando-as. Lembrei-me do infortúnio de não ter nenhuma foto da minha infância. Sei lá... gostaria de me ver! Sem dentes, pernas raladas, cabelos crespos cortados. Mas infelizmente nada meu foi registrado. Entendo as circunstâncias que permeavam a condição de uma mãe abandonada com 13 filhos. Está perdoada mainha. Mas voltemos à abordagem inicial! Pensei na Nina daqui a 20 anos (Nina é a minha filha da foto). Como ela enxergaria aquele registro? Notaria um amor quase palpável da vó que lhe segurava a mão, e da mãe que desesperadamente quis registrar aquele momento com o desidério louco de eternizar o segundo? Quer seja do amor vó-neta, mãe-filha, quiçá, criar uma memória da paisagem local de sua infância, haja vista as mudanças drásticas dos cenários naturais para abarcar novas ideias de desenvolvimento econômico e social? Ah, filha! Em 20 anos... não sei se estarei aqui, se a oma estará aqui, ou até mesmo se você estará aqui! Mas o que importa? O momento foi registrado, e alguém em 20 anos estará olhando para aquela foto de uma garotinha de tranças, que toda feliz era conduzida pela vó orgulhosa para a escola. E que uma outra pessoa com olhos famintos as fotografou! Tempo, tempo, tempo... deixe, por favor, a estrada de chão batido, a escolinha de interior e todo esse amor que reverbera pela poeira que se espalha.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Por onde andam os nobres colegas que tanto marcharam a favor do impeachment? Que clamam pelo fim da impunidade? Que aplaudem o juiz Moro pela condução da operação Lava Jato? Por onde vocês andam? Estão dormindo em berços esplêndidos achando que TUDO foi resolvido? Voltem às ruas! Façam panelaços, estardalhaços, coloquem nariz de palhaço! Não sentem no ar o odor fétido? Não se sentem manipulados como marionetes? ACORDEM!! A PEC 287 não passa de uma fraude (com fins de privatização...). Alguém já leu seu conteúdo na íntegra? Não se sentiu injustiçado? Não sentem as dores dos nossos trabalhadores rurais? Serão cruelmente injustiçados, assim como os trabalhadores urbanos. Eles alegam um déficit... mas que déficit? Sobre essa questão, assim discorre o Desembargador Sergio Pinto Martins: " Habitualmente é observado na imprensa o discurso no sentido de que há déficit do sistema de Previdência Social. O objetivo é, pela reiteração e insistência, tentar fazer com que as pessoas acreditem que de fato isso existe. Na Segunda Guerra Mundial, Paul Joseph Goebbels fazia a propaganda nazista. A ele é atribuída a frase de que a mentira afirmada muitas vezes acabaria convencendo e se tornaria verdade. Não se pode ter essa concepção."
Diante do retrocesso, lembrei-me da canção do Chico que diz: " Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações."
Que o SENADO diga NÃO! Mas com toda essa politicagem, não acredito em mais nada...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


A CELA DOS GRITOS UIVANTES
Joelma Barbosa dos Anjos¹

“O fim do direito é a paz.” A frase secular proferida por Rudolf von Ihering  na primavera européia de 1872, soou melancólica e reticente no refrão de um rap que se repetia como um mantra no pátio de um presídio; era a hora do banho de sol. A melodia de protesto foi entoada de forma uníssona por um coro de vozes numa cadência harmônica, esvaindo-se tempo depois com os últimos raios de sol no horizonte.
Renunciando à abordagem de cunho romanesco, ou seja, essa tendência intrínseca à condição humana de se enveredar pelo campo do onírico, que de acordo com o postulado freudiano, corresponde à satisfação de que o desejo se realize, destarte, o imaginário do homem sempre esteve eivado pela nota introdutória do “Era uma vez...”, haja vista a disposição velada e significativa com que possibilitou as criações de laços passionais com os “mocinhos” e a preterir os “bandidos” nas grandes produções cinematográficas, por exemplo. Eis que a proposta do  presente texto, mesmo que em dados momentos subverta as normas  da técnica narrativa, é de discorrer numa perspectiva  crítica-reflexiva no que concerne à falácia do sistema penitenciário brasileiro, entrementes, a pauta discursiva incidirá com mais veemência sobre as condições subumanas dos detentos, e no que isso implica, decorrentes da superlotação carcerária.
Ainda em sua consagrada obra intitulada A luta pelo Direito, Ihering dispõe: “O direito é um trabalho sem tréguas, não só do Poder Público, mas de toda população.” Todavia, verdade seja dita, como agir quando é pungente a sensação de impotência? O óbice nas tomadas de decisões recai na tétrica constatação de uma máquina burocrática, estagnada e um Poder Judiciário que paulatinamente vai despertando do anacronismo. Há um adágio popular que diz algo como “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Assim sendo, após anos arrastando correntes, é notória como a participação popular brasileira tem promovido debates e embates na tentativa de vislumbrar uma sociedade mais acessível e menos hierarquizada.
Retomando a figura do rapper que no início do texto cantarolava seu próprio infortúnio, faz-se necessário adentrar além dos portões das penitenciárias brasileiras, deixando-se atingir em cheio pela funesta realidade carcerária, ou como dita o antropólogo Roberto DaMatta, “Estranhar o familiar, e se familiarizar com o exótico”. Uma atitude masoquista? Não. Apenas uma alternativa esdrúxula na tentativa de depreender o incompreensível. O tempo flui, e não há como protelar as tomadas de decisões frente a especulações evasivas quanto a dados pífios ou relatórios investigativos de onde jazem as verbas destinadas às melhorias internas dos presídios. Corrupção à parte, o odor fétido que impregna o ar desses ambientes deploráveis é nauseante, e em conjunto com o mísero cubículo aglutinado de homens  que parecem se digladiar em busca de ar, pode ser tomado a nível de analogia, como uma visão prévia do inferno, restando aos que de longe só contemplam, orar fervorosamente para que sejam dignos de herdarem o reino dos céus!
Data venia, que a abordagem até então apresentada não seja vinculada a uma forma de protecionismo à figura do detento. Longe disso! A discussão versa, em seu escopo, na deficiência do Estado enquanto agente garantidor da ordem e da paz. A superlotação tem promovido motins e fugas em massa, o que põe sob o holofote a pseudo-estrutura do sistema penitenciário brasileiro. Há uma sensação geral de bem-estar por parte da sociedade, quando transitado em julgado a sentença condenatória de um réu, principalmente nos casos que fomentam a comoção nacional. Mas e ao fechar das cortinas? O encarceramento não objetiva a reestruturação dos indivíduos? E o que vem ocorrendo de fato? É recrudescente a retroalimentação da criminalidade nas próprias detenções, e, por conseguinte a reincidência. Não há como comungar com a inércia do Judiciário diante dessa triste estatística. A frase de Jacques Maritain quando diz que "Quem salva um homem salva a humanidade", faria jus ao clamor pela reforma prisional.
Há exemplos de presídios-modelo em algum canto nesse Brasil varonil, entretanto, são casos isolados, não se estendendo para um grande contingente de detentos que são obrigados a cumprirem suas penas sob condições abjetas. Quem sabe se cantarolando não é possível afugentar os fantasmas que assolam esses condenados? Condescendência? Não. O apelo ao sentimentalismo exporia qualquer crime à pena capital, o que infantilizaria qualquer debate...
Correntes xiitas hão de argumentar que não há nada de novo na temática que exaustivamente já vem sendo explorada, e que aqui se reitera apenas como mais uma tentativa de angariar simpatizantes em prol do movimento que busca estender a bandeira em favor da reforma do sistema carcerário, o que não teria nada de capcioso. Como o ceticismo é a mola propulsora da ideologia de muitos extremistas, há a possibilidade de trazerem à tona discussão quanto à utopia da empreitada, pois em O navio negreiro de Castro Alves, datado do século XIX, já havia relatos de superlotação e condições animalescas de negros amontoados à base do estalar dos chicotes, nos porões de navios, e que a história dos presos de hoje não se mostraria assim muito diferente. Estaria ali o prenúncio de uma problemática social que na pior das hipóteses, perduraria por muito tempo? Nesse caso, não caberia aos póstumos a luta pelo o que é de direito? Por onde andaria a figura do super-homem tão defendida por Nietzsche?
É premente a necessidade de medidas mais eficazes, e que o “super-homem” entre em cena com sua majestosa beca, tomando a linha de frente do combate como um general imperioso liderando sua tropa. Porque assim como o fim do direito é a paz, Sun Tzu apregoava com a milenar sabedoria chinesa em a Arte da guerra, que “o verdadeiro objetivo da guerra é a paz.” Logo, percebe-se que é preciso transpor o campo de batalha com a força de um guerreiro, mas revestido da sabedoria de um monge.
Que a vontade de potência vá além da sentença martelada! Faça-se presente ao seleto grupo de legisladores, que percorra os corredores frios e sórdidos das penitenciárias em ruínas, que cante ou dance com os detentos, que se deite nos minúsculos catres, tendo como companheira a reflexão!



                                       
Acabei de chegar de uma visita ao meu senhorio - o único vizinho que me poderá incomodar. Que bela região, esta! Em toda Inglaterra, acho que não poderia ter encontrado um lugar tão completamente afastado da sociedade humana. Um perfeito paraíso para os misantropos - e eu e o senhor Sr. Heathcliff  formamos um par  bem adequado para dividi-lo entre ambos.


in: Capítulo I de O Morro dos Ventos Uivantes.

Emily Brontë