NÃO FUI A WOODSTOCK
Prólogo
Chovia copiosamente naquela noite fria de 1974. O pêndulo do relógio marcava meia-noite, quando a penumbra do quarto foi cortada momentaneamente pelo clarão de um belo isqueiro. Acendendo seu último cigarro, Clara deu uma longa tragada depositando-o em seguida no cinzeiro. Uma lufada fria penetrou pela fresta da janela quebrada, fazendo-a encolher-se sobre a poltrona; o frio era aterrador e o sono custava a vir. Longinquamente ouvia-se o uivar de cães. Levantando-se abruptamente, dirigiu-se à janela da sala. Morava no terceiro andar de um velho sobrado do início da década de vinte. Abaixo de sua janela havia uma enorme amendoeira, o que a impedia de ter uma visão mais ampla do saguão de entrada. Uma tênue claridade era vista de um dos cômodos da casa de pensão que ficava na esquina da rua, a antiga proprietária, uma senhora gorda e de feição taciturna, fora acometida por um derrame fatal, deixando para a única parente, uma prima avarenta e caquética, a função de administrar os negócios.
Resoluta, Clara decidiu voltar ao quarto. Por uma fração de segundos sentiu sua respiração entrecortada e um medo gélido paralisá-la. Alguém forçava violentamente a maçaneta de sua porta. Trêmula, recostou-se junto à parede próxima à escrivaninha, e lembrou-se do misterioso assassinato que ocorrera há alguns meses em um bairro adjacente; a vítima fora totalmente mutilada a golpes de facão pelo homicida. Espasmos recrudescentes sacudiram-lhe o corpo. Imagens caleidoscópicas e vagas de sua infância sobressaltaram-na, como da época em que o irmão a amedrontava com uma máscara carnavalesca. Um forte estrondo na porta, despertou-a do breve devaneio, atônita e coagida começou a soluçar. De repente, começou a ouvir vozes vinda do andar inferior. Assustada, percebeu que do outro lado, um diálogo ininteligível era travado entre seus possíveis algozes. Naquele momento era única moradora do sobrado, e a senhoria, a Sr.ª Hoffmann estava em viagem ao interior da cidade. Arrastando-se mecanicamente pelo assoalho chegou ofegante ao quarto; de soslaio, avistou um rato que sorrateiramente atravessou o canto da cômoda.
Lá fora a chuva insistia em cair torrencial. Apoiando-se em uma cadeira, ergueu-se com dificuldades; pegando o cigarro soltou uma longa baforada. Neste ínterim, percebeu que o alvoroço de vozes havia se extinguido e passos eram ouvidos se afastando pelas escadas. Soltando um longo suspiro desmoronou sobre a cama. “Talvez fosse o momento de bater em retirada... sinto-me na tênue delimitação das próprias forças, e irremediavelmente desolada. Até quando conseguiria viver na clandestinidade?” Pensou consigo resignada. Todos seus antigos companheiros que magistralmente protestaram, expondo-se através de severos movimentos de oposição contra o aparelho repressor usado pela ditadura, já tinham sidos assassinados covardemente com requintes de crueldades. A luta pela democracia, naquele instante, parecia-lhe bastante distante.
Seus lindos olhos azuis estavam cravados no teto, quando a porta da sala foi estrondosamente arremessada ao chão...
Capítulo I
-Venha Clara!
Lembro-me como se fosse ontem daquela tarde ensolarada em que minha mãe me chamara de forma tão enérgica. Eu contava então com meus tenros sete anos. Aquela voz soara sempre num timbre austero, e tinha o poder assustador sobre mim. Transpus a pouca distância que nos separava em frações de segundos. Ofegante, deparei-me com um par de olhos inquisitivos e inflamados de ódio.
Minha mãe sempre fora uma incógnita. Seu semblante costumeiramente hostil e taciturno lhe reservara sulcos profundos na face; aparentava mais idade do que realmente tinha. Fora uma mulher indubitavelmente triste. Nunca consegui atravessar aquela ponte enorme que nos separava. Quanto à existência do meu pai, eu a compreendia como aquelas figuras dos quadros de temática surrealista. Minha história estava repleta de lacunas fantasmagóricas.
Como de praxe ela trajava um vestido ordinário de chita estampado, e aos pés um chinelo velho de dedo. Puxando-me pelo braço esquerdo, pôs-me ao seu lado.
- Então você é a pequena Clara?- A pergunta vinha dos fundos da nossa minúscula casa.
Intrigada, fitei demoradamente aquela figura feminina de postura imponente que surgia na minha frente. Seus olhos verdes penetrantes deixavam transparecer solicitude. Senti-me retraída e procurei fixar meus olhos num ponto perdido no chão. Abaixando-se, a desconhecida passou as mãos por meus cabelos num gesto de carinho que até então eu desconhecia. Ela falara algo que soara inaudível, mas seu hálito era morno e lembrei-me do aroma de canela.
- Fale com a moça Clara! - Gritara minha mãe irritadiça.
Mesmo de longe consegui vislumbrar Zara, minha boneca feita de trapos; encontrava-se fincada no arame farpado de nossa cerca - “ Gostaria de apertála contra meu peito e não me sentir tão amedrontada” - Pensei entre lágrimas.
Paulatinamente fui erguendo meus olhos e encarei aquela mulher que algum dia me gerara, mas não a reconheci. Era um ser desprovido de qualquer tipo de sentimento, e eu reconheci isso com uma dor profunda.
- Garotinha infernal! - Ouvi-a esbravejar por entre os dentes - Você vai ver como é que se obedece a um adulto - A essa altura ela já levantava a mão na minha direção.
Para minha própria surpresa, não procurei fugir daquele ato de violência da qual costumeiramente me tornara alvo. Apenas fechei os olhos involuntariamente e permaneci estática, esperando o inevitável tapa na face. Entretanto, braços delicados me ofereceram proteção. A carga de emoção que esse gesto promovera em mim, fora mais surpreendente que o provável ato de fúria da minha mãe.
Estendendo-lhes meus lânguidos braços fui erguida e acolhida carinhosamente. No colo daquela mulher estranha comecei a me sentir mais forte. Da altura em que eu me encontrava, senti uma sensação de empáfia, e sorri ingenuamente. Olhei com ar de despedida para aquele cenário de pobreza que por sete anos estivera inserida. No meu íntimo, intuitivamente eu sabia que era dada a hora da partida.
Capítulo II
O diminuto soutien me sufocava! Era um número menor que o meu, mas na falta de algo melhor, seria com ele que eu teria que me virar. Uma lamparina de parafina no canto do único cômodo da choupana, lançava uma luz amarela e pálida sobre minha imagem refletida no espelho. O vermelho intenso do batom era o que mais se destacava no meu rosto magro e de ossos proeminentes. Uma cascata de cabelos negros caia delicadamente sobre meus ombros delgados. Os olhos de um azul límpido permitiam antever angústia e revolta. Um longo ronco no meu estômago me fez lembrar que há dias não me alimentava bem. Eu sentia uma fome voraz, e aguardava Paulo com bastante ansiedade. Em poucos minutos um assovio familiar acabou por me tranquilizar, finalmente Paulo chegara.
Ele ainda conservava o mesmo sorriso cativante de quando o vira pela primeira vez. O breve sorriso, no entanto, não conseguia disfarçar seu nervosismo, pois ao deixar o pequeno embrulho contendo pão e uma garrafa térmica com café sobre a mesa, passou a esfregar freneticamente as mãos nos bolsos da calça. Eu me sentia profundamente culpada por tê-lo envolvido numa situação tão comprometedora.
Desde que eu deixara o estado de Santa Catarina para cursar Direito em São Paulo, que não o via. Eu sempre tivera o espírito perquiridor, e a efervescência das grandes cidades me seduziam. A região do Alto Vale era bastante acolhedora, mas eu queria me enveredar em novas conquistas; sentia que tinha o mundo todo em ebulição dentro de mim. Os burburinhos constantes que eu ouvia sobre pessoas desaparecidas por abraçarem um ideal de liberdade, apenas fomentavam a minha partida.
Paulo não mudara muito. A barba por fazer e os cabelos em desalinhos, davam-lhes um charme bastante peculiar. A tez branca contrastava com os olhos negros profundos e perspicazes. Havia uma cicatriz no supercílio esquerdo, adquirida com uma queda do telhado aos doze anos; eu lembraria sempre
daquele episódio. Ele era um homem de beleza singular. A nossa separação havia sido bastante dolorosa, e por seu olhar oblíquo, ficava evidente que algumas lembranças não foram superadas.
- Quero agradecer pela permissão de me refugiar em suas terras – Tentei quebrar o gelo. A última vez que falara com ele fora por telefone – Não ficarei mais que uma semana. – Minha voz saíra fraca, me traindo.
- Fique o tempo que quiser Clara – Falou Paulo aproximando-se de mim – Peço desculpas pela falta de conforto, mas foi a única coisa que consegui longe dos olhares indiscretos – Neste momento suas mãos seguravam meu rosto, erguendo-o com delicadeza - Não sei em que práticas subversivas você anda envolvida, entretanto, gostaria que soubesse que sempre estarei do seu lado independentemente da situação – Percebi seus olhos úmidos ao fitá-lo demoradamente.
Sempre haveria aquela carga de emoção em nossos encontros, e eu, forçada pelas circunstâncias extremas, tendo que abandonar aquele homem solícito e viril. A militância política promovia esses suplícios...
Capítulo III
Além de uma mãe aplicada e amorosa, ganhei também um irmão atencioso e amigo. Ele era cinco anos mais velho que eu; juntos compartilhamos momentos de cumplicidades e descobertas de sentimentos fraternos. Nunca fui tão feliz.
A propriedade da família era tão extensa que se perdia de vista com seus verdes pastos. A paisagem era dominada por eucaliptos e araucárias, todavia, a principal atividade econômica versava na criação de gados tanto para o abate quanto para a produção de laticínios.
De colonização germânica, a região tinha o idioma alemão como língua de forte influência nos constantes diálogos entre os colonos dos interiores. Os almoços regados com fartos pratos à base de carne suína e derivados retratava bem a descendência da população local.
Os longos e rigorosos invernos passávamos ao pé de um enorme fogão de lenha, mantido por minha mãe num amplo rancho que servia de cozinha contígua à casa principal. O chimarrão tornava-se amigo inseparável durante a fria temporada.
Nossa propriedade fazia divisa com a da família Feurbach, um fleumático casal que fixara raízes na região havia dez anos migrando do Rio Grande do Sul. Eles tinham no único filho, o pequeno Paulo Feurbach, uma verdadeira adoração, pois foram várias as tentativas frustradas para a Sra. Feurbach engravidar após o casamento. Vinte anos depois, já sem esperança de serem abençoados com uma criança, é que o robusto e saudável bebê viera ao mundo. Tínhamos a mesma idade, e nossa amizade se deu espontaneamente e com a assustadora velocidade da luz.
Minha mãe perdera o marido dois anos após o casamento em decorrência de febre tifoide. Com bastante determinação e afinco criara o irrequieto Egon, fruto do lindo e breve relacionamento. A mesma garra a fizera conduzir a propriedade
com pulsos fortes, pois vários eram os serviços e limitado o número de empregados. A responsabilidade era incomensurável e exigia o máximo comprometimento da parte dela.
Tive a oportunidade de ser alfabetizada numa tradicional escola de dogma católico, em contrapartida, a rigidez das irmãs e os árduos sermões, começaram a delinear os primeiros traços de uma insatisfação peculiar que me afligia mediante situações que eu considerava injustas.
Só me sentia realmente livre quando estava em companhia do meu irmão e de Paulo, correndo por entre as árvores de salseiros ou subindo nos pés de jabuticabas. Eram tardes deliciosas de domingos se banhando num ribeirão que atravessava a propriedade. Para fechar com chave de ouro esses encontros, ainda havia a longa e dolorosa expectativa pela deliciosa cuca de queijinho que seria servida no café da tarde.
Posso falar com toda autoridade que fui muito feliz nestes momentos de descontração e ingenuidade.
Capítulo IV
Havia bastante sangue no espaldar da cadeira que costumeiramente eu utilizava para os estudos. Acabara de chegar da universidade, e o estado do pequeno quarto que compartilhava com uma estudante de Engenharia era deprimente. Os escassos móveis que possuíamos estavam fora do lugar, e por todos os lados livros espalhados. Maria Helena era proveniente de Sorocaba e militante ferrenha contra a ditadura. Constantemente demonstrava seu repúdio exacerbado ao sistema estabelecido através de passeatas, e mostrava bastante orgulhosa uma cicatriz que possuía no abdômen em decorrência de um tiro em conflito com a polícia. Pertencia a um grupo de contracultura que se reunia todas as noites em lugares distintos, e quase sempre angariando um número expressivo de simpatizantes à causa revolucionária.
Onde estaria Maria Helena? No meu íntimo não restavam dúvidas que ela fora levada pelos agentes do DOI. Vários dos meus amigos tinham sofrido torturas desumanas durante os intermináveis interrogatórios no DOPS. Os que não estavam desaparecidos apresentavam quadros de esquizofrenia.
Meu ódio era absoluto contra o plano de fundo político de intolerância e truculência propagada pela ditadura. Como comungar com tanto despotismo? Abaixo a repressão bandos de filhos da puta! Macularam nossa pátria com sangue de inocentes.
Pegando minha mala que estava jogada no canto esquerdo da cama, comecei a jogar às cegas algumas peças de roupas. Encontrei alguns livros do meu curso de Direito rasgados. Quando a justiça seria feita? Pensei desolada.
O dia estava bastante quente e abafado. Olhando o delicado relógio de ouro, presente que ganhara da minha mãe, constatei que já passava das 14h. Colocando a mala no banco traseiro do meu fusca 1966, dirigi à casa de Rodolfo.
Eu conhecera Rodolfo no primeiro ano de faculdade perambulando pelos corredores do prédio. Ele cursava Filosofia e nutria uma paixão ímpar por seu violão. Os cabelos longos e encaracolados em conjunto com as roupas rasgadas,
criavam a caricatura de um rebelde sem causa, entretanto, a verdade era bem outra, possui um forte senso de justiça. Era o mais velho dos três irmãos e sonhava em visitar a Grécia.
A casa ficava a duas quadras da minha. Morava sozinho, preferia manter a privacidade, confidenciara uma vez para mim. Chamei de plenos pulmões e nada. Segurando na maçaneta da porta, notei que a mesma não estava trancada. Entrei. A voz rouca e inconfundível de Janis Joplin com seu rock psicodélico vinha da vitrola. O ambiente estava impregnado do forte odor da marijuana. Numa cama de campanha posta inusitadamente na área de serviço, encontrava-se um Rodolfo em sono profundo. Sua relação com o baseado era bastante estreita. Esperaria até ele recuperar a consciência...
Capítulo V
Até os treze anos de idade minha relação com a morte fora mantida a uma distância bastante considerável. Essa afirmativa, no entanto, não descartava a possibilidade de se ouvir que fulano ou beltrano havia falecido na região. A questão central era que essas pessoas não pertenciam ao meu nicho familiar. Eis que num outono cinzento ela surgiu com sua dança funesta e gargalhadas agudas.
Neste dia eu acordara indisposta, e por recomendação materna fui orientada a permanecer na cama. Como fazia bastante frio, acabei por deslizar entre as cobertas e voltei a dormir. Foi um sono agitado por um pesadelo onde eu aparecia sendo devorada por uma barata gigante, e num outro momento várias aves de rapina sobrevoavam nossa casa. Despertei assustada.
Um pouco tonta pela indisposição que ainda continuava, fui andando trôpega até a cozinha procurar por minha mãe. Ela estava fazendo compotas de morangos, e me lançou um olhar reprovador por estar descalça. Aproximei-me e a abracei pela cintura. Como era gostosa aquela sensação de proteção! Sacudi levemente a cabeça na tentativa de exorcizar os fantasmas.
Gritos de dor e desesperos vinham de fora. Um mau presságio apoderouse de mim e inevitavelmente, lembrei-me das aves de rapina. Minha mãe me olhava fixamente, foi então que notei seus olhos velados pelo pânico. Senti meu corpo lânguido e febril. Não me movi. Os gritos continuavam agudos e cada vez mais próximos. Permaneci estática por alguns segundos. Estava petrificada pelo medo. A porta foi escancarada e dois empregados pálidos e assustados, pareciam atônitos em nos dizer algo. Logo adiante era possível ver outros empregados num alvoroço em volta de um jovem corpo estendido no chão. Perdi a consciência.
Durante alguns anos aquelas aves de rapina tinham tirado meu sono. Todavia, com o tempo aprendi a contornar a situação, e passei até mesmo a dialogar com elas na escuridão.
O difícil fora aceitar a morte prematura do meu querido irmão. Como doía aquela perda. Quantas noites passei em claro tentando digerir a triste e dolorosa realidade. Minha mãe se agarrara em mim como se eu fosse um bote salva-vidas.
Chorei por uma longa temporada e numa angústia profunda procurei conforto nos ombros do meu inseparável amigo Paulo, e de forma carinhosa ele tentava me acalentar. Aos poucos a dor foi diminuindo e a saudade aumentando, mas a imagem do jovem corpo esmagado por uma árvore perduraria por muitos anos, pois no fatídico acidente meu adorado irmão auxiliava um dos empregados na derrubada de um cedro.
Capítulo VI
“Doce caverna”, a república que passei a morar era um verdadeiro celeiro de variações linguísticas. Uma das cláusulas contratual era concernente à aceitação de estudantes apenas do sexo feminino. Éramos seis garotas de diferentes regiões do país e que compartilhávamos da mesma frustração de não termos ido ao Festival de Woodstock. Havia a baiana Aline que cursava Química, e sua paixão era tanta pelo mundo das partículas atômicas, que todas nós passamos a chamá-la de Srta. Rutherford. Com “doutorado” na cozinha, pois seus pratos eram magníficos e tal título não seria uma afronta à ordem e os bons costumes, a mato-grossense Heloisa estudava Matemática, e comumente dizia que só conseguia assimilar os conteúdos colando todas as fórmulas pelas paredes do quarto. As gêmeas Maria Luiza e Bárbara estavam no segundo ano de Sociologia, tinham deixado o estado do Pará com o intuito de seguir os passos do Claude Lévi-Strauss, por quem nutriam admiração. Já a mineira Ana Beatriz, assim como eu optara por Direito. O café da manhã, única refeição compartilhada por todas, era regado com divertidos sotaques.
Durante a convivência, tornou-se notória nossas afinidades por um ideal de liberdade e justiça. Não aceitávamos a censura com sua castração ideológica, tampouco a falta de informação sobre os desaparecidos políticos. Unindo forças, optamos pela criação de um movimento apartidário, que na sugestão da mineira Ana Beatriz, e por aprovação majoritária, passou a se chamar Liga da Justiça. Em prol da causa participávamos de passeatas da UNE, elaborávamos cartazes de protestos, sendo que uma das práticas mais constantes era a pichação de prédios públicos com frases de ordens. Eram momentos únicos de adrenalina e subversão. Foi durante este período que desenvolvi o hábito de fumar.
Os estudos exigiam um comprometimento cada vez maior de mim, e com total desprendimento de energia eu mergulhava no saber jurídico. Mesmo que o Brasil estivesse passando pela via-crúcis da ditadura, onde práticas de torturas medievais eram legitimadas por atos institucionais arbitrários, optei em continuar acreditando que a democracia seria estabelecida, ainda que a resposta ao regime acarretasse em exílios e assassinatos. Muitos dos meus amigos me rotulavam de
ufanista, mas independente do clichê, eu comungava com o postulado de Rudolf von Ihering quando ele afirmava em uma das suas obras que “o fim do Direito é a paz.” E por que não acreditar na paz? A crença de que um dia ela seria estabelecida é que fortalecia minha luta contra a repressão.
A liga da justiça aos poucos foi aceitando a adesão de vários outros sectários. De repente eu me via na liderança de um movimento que ganhava proporção colossal. Havia excitação e expectativa em todos nós. Alguns rostos eram conhecidos, a exemplo das meninas da república, do Rodolfo e outras pessoas da faculdade, mas a grande massa era totalmente desconhecida do meu ciclo de amizade.
O pavio fora aceso, apenas nos restava a militância mais contundente. Por força do ofício passei a viver na clandestinidade e armada. Não tinha como retroceder daquele ponto.
CAPÍTULO VII
A primavera chegara com todo seu esplendor, e com ela, os inconfundíveis perfumes das rosas. O convite para se aventurar pelos resquícios da Mata Atlântica era irresistível, dado que nossa propriedade contava curiosamente com algumas cavernas indígenas cavadas num paredão, e o toque todo especial de uma belíssima e refrescante cachoeira. Os vizinhos mais próximos costumavam dizer que nós morávamos no paraíso, e eu particularmente tinha que concordar! Após selar Maneca, meu cavalo favorito, pus-me a cavalgar pela bela paisagem. Eu aprendera a amar cada cantinho daquele lugar encantador, entretanto, em poucos meses estaria de partida para São Paulo, iria em busca dos meus ideais de vida. A saudade seria incomensurável das amizades constituídas, e pelas quais eu tinha um grande apreço, mas eu sentia que precisava encarar uma nova etapa na minha vida, e mediante tal possibilidade, cada centímetro do meu corpo vibrava de emoção.
Após as exaustivas e frustradas tentativas de demover a minha decisão de partir, minha mãe acabara por decidir pelas vendas dos bens e ir de mudança para Londrina, onde morava o único irmão. Achei ótima a medida tomada por ela, afinal, eu não tinha pretensão alguma quanto a voltar a morar na região novamente, tampouco, gostaria de deixá-la sozinha e distante de mim.
Pondo Maneca no pasto, optei por caminhar descalça sobre a relva úmida. De longe avistei um casal de quero-quero num voo rasante à margem do ribeirão. Uma suave brisa jogou minhas longas madeixas para trás. O dia estava lindo e de clima agradável, continuei com meu passeio por entre os pés de eucaliptos. Lembrei-me da minha antiga casa na árvore, e segui em outra direção. A ideia de construí-la partira de minha mãe quando eu tinha nove anos; ela argumentara na época que eu precisava de um lugar só meu, mas verdade seja dita, que a maior parte do tempo eu brincara na casinha fora com Paulo. Fazíamos de conta que éramos selvagens e que tínhamos conquistado uma moradia. Ríamos muito com essas aventuras pueris.
Há anos que deixara de frequentar a casa da árvore, pois trazia lembranças de uma infância feliz ao lado do meu irmão que ajudara a projetá-la. Enxugando uma lágrima que insistia em deslizar por minha face, segurei firmemente na corda, e subi pela escada engendrada. O estado era o mesmo desde a minha última visita. Havia algumas fotos de recortes de revistas dos Beatles e de Elvis Presley coladas nas paredes. Uma velha esteira estava jogada num canto, pegando-a, bati contra a parede de fora retirando a poeira. Abrindo-a no centro da casinha, acabei por ficar ali sentada abraçada às minhas próprias pernas, e perdida em pensamentos vagos. Um estalido estranho acabara por chamar minha atenção para o vão de entrada. Era Paulo.
Não consegui vislumbrar a criança que até pouco tempo brigava comigo por causa de uma bola. Eu estava diante de um homem de músculos definidos e sedutor. Ficamos sem pronunciar uma única palavra, mas nossos olhos diziam tudo. Então, as lembranças dos meus sete anos e o momento da despedida de minha mãe biológica vieram à tona. Era chegada a hora de dizer adeus também ao Paulo.
Levantando-me, segurei-lhe as mãos. Nossas bocas se uniram numa ânsia instantânea de frenesi. Era um sentimento latente que inusitadamente despertava numa fúria louca. Senti seu sexo rijo junto à minha coxa, quase desfaleci de desejo. Abaixando-se, Paulo retirou com certa impaciência meu short e minha calcinha. Senti-me um pouco envergonhada por estar seminua diante dele, mas Paulo acabou por tirar as próprias roupas, e levou-me até à esteira.
Fora naquela tarde de primavera, na casa da árvore, que descobri as delícias do sexo, as juras de amor e o grande pesar de dizer adeus a quem se ama.
CAPÍTULO VIII
- Aqui Clara! Por aqui! Tente virar à esquerda.
Eu estava desnorteada e tentava desesperadamente seguir as instruções daquela voz. A tarefa ganhara uma faceta bastante árdua em meio aos bombardeios e gritarias. A polícia montada, juntamente com os demais militares, tentava dispersar a multidão lançando bombas de gás lacrimogêneo. A praça estava tomada pela fumaça, e eu sentia meus olhos arderem e a garganta seca. Não conseguia enxergar com clareza, mas procurei me afastar o máximo que podia do território de conflito. Sob meu cardigã senti o cabo da minha pistola Luger, e passei a correr com mais firmeza. Parei por alguns segundos em busca de ar, meu peito doía pelo esforço da corrida. Não muito distante ouvi a sirene de um camburão que patrulhava a área, e decidi retomar a fuga. Com certa dificuldade consegui transpor alguns obstáculos, e alcancei um terreno baldio apinhado de contêineres de lixos. Contornando alguns deles, acabei por me esconder entre um vão formado pela sobreposição de metais retorcidos. O odor era nauseante, mas tive apenas que pensar na minha própria sobrevivência para superar qualquer mal-estar. Assustada, ouvi um ruído de motor aproximando-se. A luz alta do farol cegou-me momentaneamente, entretanto, consegui distinguir algumas pessoas sendo retiradas violentamente do carro, e forçadas a se ajoelharem no chão. Em seguida três estampidos de arma de fogo ecoaram na noite, e vi nitidamente quando os corpos tombaram inertes. Do meu esconderijo sufoquei um grito de pânico e dor, pois fora traumatizante presenciar aquela cena de execução sumária. Com a mesma velocidade que o carro chegara, ele também partira. Por segurança permaneci escondida. Após um longo intervalo de tempo é que decidi sair do lixão. Aproximando-me dos cadáveres, parei estarrecida reconhecendo os corpos da Srta. Rutherford e das gêmeas do Pará. Com a voz embargada pelo choro me despedi das ex-companheiras da “Doce Caverna”.
Meu estado era deplorável, pois minhas roupas estavam rasgadas, sujas e eu fedia horrores. Mecanicamente comecei a perambular sem destino por lugares ermos e insólitos, mas procurando sempre me manter na escuridão como forma de precaução. Mentalmente comecei a cantarolar um refrão da canção do Geraldo
Vandré “ Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer...” A imagem das minhas amigas assassinadas me angustiava tremendamente. “Aqueles bastardos executaram minhas amigas!”, eu repetia como um mantra enquanto andava sem destino. Um corcel passou por mim em alta velocidade, em contrapartida tudo continuava no mais absoluto silêncio. De repente, braços fortes me puxaram para um beco e uma mão tapou minha boca. Comecei a me debater freneticamente.
- Calma Clara! Sou eu, Rodolfo.
Entre surpresa e amedrontada, acabei por abraçá-lo desabando num choro compulsivo.
- Precisamos nos afastar daqui o mais rápido possível – falara Rodolfo numa visível agitação.
- Eu já sei para onde ir – respondi lacônica.
CAPÍTULO IX
A primeira impressão que eu tivera ao chegar a São Paulo fora de admiração e estupor frente à aglomeração e a diversidade cultural das pessoas pelas ruas, haja vista minha procedência provinciana. Os enormes arranha-céus me encantaram pela ousadia arquitetônica e a selva de pedra que em conjunto formavam.
Ao descer na rodoviária eram poucos os meus pertences, pois decidira trazer apenas duas malas e muitos sonhos a serem realizados. Pegando-as, direcionei-me a um taxista, eu tinha em mãos o endereço de uma antiga amiga de minha mãe que ficara com a incumbência de providenciar minhas acomodações.
A pensão, que a nobre senhora conseguira para mim, tinha uma ótima localização e era frequentada predominantemente por estudantes, sendo que uma vez ou outra apareciam alguns profissionais liberais para o pernoite. Próxima ao meu quarto havia uma paulista da cidade de São José do Rio Preto, douta nas ciências jurídicas, objetivava ferozmente em advogar na área criminal. Seu nome era Thalita, e em pouco tempo, justificada talvez pela minha carência familiar, vime dependente da sua amizade.
Certa manhã, faltando um mês para o início das aulas do tão sonhado curso de Direito, acordei com ânsia de vômito e os seios doloridos. O primeiro pensamento fora de ligar para minha mãe, mas reconsiderei a ideia uma vez que poderia ser algo sem importância, e deixá-la preocupada sem motivo não me pareceu conveniente. Um enorme espelho com detalhes rococós nas extremidades ficava numa das paredes do quarto, e parando em frente a ele tirei minha camisola. Notei os seios inchados e que meu ventre estava levemente proeminente. Fora como se um balde de água fria despencasse sobre minha cabeça. Eu estava grávida! Apavorada com a óbvia constatação voltei a deitar na estreita cama. Meu estado era de total desespero e incredulidade. O que seria de mim? Grávida, sozinha e às vésperas das aulas? Automaticamente lembrei de Paulo e tentei imaginar qual seria sua reação caso soubesse que eu carregava seu filho no ventre. Provavelmente adoraria a notícia, e a julgar pela educação
familiar que recebera proporia casamento. Minhas conjecturas estavam carregadas de romantismo, mas o contexto era outro e aquela criança não fora planejada, e ainda seria um empecilho para o que eu estabelecera como prioridade para os próximos anos! Vesti às pressas uma jardineira e fui à procura de Thalita, que surpresa com meu relato acabara por sugerir taxativamente que eu fizesse um aborto. Concisa contou-me que sua prima, a estudante de Engenharia Maria Helena, conhecia uma mulher que poderia fazer o serviço. Finalizara o assunto dando-me garantias que o ambiente era de segurança, discrição e que no final tudo daria certo. As lembranças se esvairiam no tempo, dissera-me numa gargalhada sarcástica.
Cinco dias depois o sórdido serviço fora realizado, e um enorme vazio se apoderara de mim. Que espécie de pessoa egoísta eu me tornara? Por que não compartilhara a notícia da gravidez com minha mãe ou com o próprio Paulo? Eu receberia apoio irrestrito de ambos, pois eles me amavam incondicionalmente e a recíproca era verdadeira! Minha conduta fora leviana, covarde e mostrava uma faceta desprezível que até então nem eu mesma conhecia. Profundamente envergonhada, peguei minha bolsa e saí daquela pseudo-clínica.
Ao chegar à pensão senti uma tensão lúgubre no ar, e muitos dos moradores estavam cabisbaixos e chorosos. Thalita fora encontrada morta à margem de uma rodovia, e seu corpo apresentava marcas de torturas e abuso sexual. Somente com a sua morte é que eu fora descobrir que ela era membro de um grupo de ativistas comunistas. As aves de rapina estavam sobrevoando a área.
Ainda que fosse dolorosa a sequência da receptividade, estas foram as ordens dos fatos ocorridos desde minha chegada à cosmopolita cidade.
EPÍLOGO
Da janela do seu escritório de advocacia localizado na Avenida São João, Clara observava absorta a passagem de alguns transeuntes que eufóricos comemoravam a Lei da Anistia. “Os filhos expatriados finalmente recebiam os salvos-condutos, bandos de dissimulados!” Pensou a contragosto – Explodindo numa fúria incontida, Clara bate com os punhos fechados sobre a mesa de mogno.
A lei que concedia o perdão político aos que de forma indômita e visceral combateram arduamente as práticas arbitrárias dos militares, seria a mesma que beneficiaria os tiranos, ou seja, a lei nascia eivada de interesses putrefativos. “ Mas como esquecer das mazelas dos anos de chumbo? Quantos amigos queridos tinham morridos ou desaparecidos? Os bárbaros assassinos sairiam incólumes?” Eram perguntas que Clara sabia que não obteria respostas, mas se reservava ao direito de questionar os meandros de aprovação da lei capciosa.
Dirigindo-se até à copa pegou uma xícara de café. Sorvendo o fumegante líquido, lembrou-se da aterrorizante noite fria em que foi surpreendida com a visita tempestiva de sua mãe acompanhada de Paulo e de outros três conhecidos, que a resgataram do estado de coação em que se encontrava no velho sobrado da década de vinte.
Ainda que cada molécula do seu corpo vibrasse de indignação com a falta de liberdade de expressão e tantas outras limitações impostas pelo regime, Clara optara por continuar com uma atuação menos contundente, pois tinha cansado de bater em pontas de facas. Reconhecia-se como uma desertora do ideal revolucionário apregoado pela Liga da Justiça, mas sua mãe havia implorado com lágrimas nos olhos que ela se afastasse da linha de frente do combate. “Covarde”, essa fora a palavra que lhe viera à mente no dia em que devolvera a pistola ao Rodolfo, e assumira o papel de coadjuvante. “Às vezes precisamos abdicar de certas atitudes para não machucar quem amamos”, ponderou decidida.
Dois porta-retratos decoravam sua mesa do escritório. Num deles Clara aparecia sorridente abraçada à mãe na festa de graduação. O outro retrato era mais recente, datando apenas de dois anos atrás quando contraíra matrimônio
com Paulo. “Apesar dos percalços, tinha conseguido realizar três grandes sonhos!” – refletiu Clara acariciando o volumoso ventre.
O céu naquele dia estava bastante nublado anunciando a forte chuva que logo desabaria sobre a cidade, entretanto, o mais importante era que não havia nenhum
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