quinta-feira, 14 de junho de 2012


O triste fim de Olga Benário


Joelma Barbosa dos Anjos

“ O homem é fruto de suas escolhas.”
(Jean-Paul Sartre)


Com a citação propedêutica de Sartre, faz-se mister discorrer de forma elucidativa e objetiva no que tange ao contexto histórico, político e social da Alemanha e do Brasil na década de 30, cujas conjunturas implicaram numa postura de descontentamento, insurreição e extermínio de Olga Benário.
Sob a batuta nazista de um Estado totalitário e de caráter nacionalista exacerbado, foi que a Alemanha despontou ameaçadora com seu arsenal bélico e a propagação da ideologia anti-semita, assim como  anti-comunista, tendo como liderança funesta o führer Adolf Hitler. No Brasil, a década de 30 foi preponderantemente a base de disseminação das idéias ditatoriais, que culminariam na projeção de Getúlio Vargas como figura expoente na política e articulador contundente nas tomadas de decisões pertinentes ao país. Destarte, as trincheiras antagônicas passaram a ser erguidas, ou seja, o pavio foi aceso, e uma nova sanção normalizadora passou a vigorar. Entrementes, o Estado passou a controlar o indivíduo de forma incisiva, destituindo-o de sua autonomia, sendo a Alemanha a expressão mais sórdida nesse método de aniquilação dos direitos da personalidade.
Foi com esse plano de fundo histórico permeado de censura, castração ideológica, repúdio à subversão, intolerância religiosa e racial, que Olga Benário tornou-se vítima de um ordenamento déspota. Ao fazer a escolha de militar contra o regime vigente de sua época, Olga acabou por decretar sua própria sentença de viver à margem da sociedade, haja vista, a condição aquém da militância comunista frente à ordem recrudescente  nazista.
Em meio ao miasma que se tornou a corrida armamentista, onde nas entrelinhas era nítida a fomentação ao ódio e da perseguição étnico-religiosa, que questões de cunho à dignidade humana, como o direito à vida, à liberdade de expressão e o direito de ir e vir do indivíduo, foram suscitadas com mais veemência pelas correntes contrárias ao nazismo e ao fascismo. A adoção e proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos ocorreram em 1948, não obstante, o extermínio em massa de judeus e opositores às idéias apregoadas por Hitler, foi anterior a essa declaração. Em outras palavras: os direitos elencados nos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos são em seu bojo, direitos intrínsecos à condição humana, e que por anos foram silenciados em campos de concentração, lançamentos de torpedos e uso da câmara de gás.
Em suas reminiscências, Olga faz alusão a um episódio de infância indubitavelmente significativo no que concerne aos seus valores idiossincráticos, todavia, toldados em  parâmetros de pressupostos morais. Cena inicial do filme: Cercada por crianças que brincam alheias aos perigos iminentes, Olga olha maravilhada a neve que cai; decidida, pula uma fogueira sob a advertência austera do pai e diz: “Pai, se eu cair eu não vou chorar”. De espírito perquiridor , desde sua mais tenra idade Olga Benário já tinha feito sua escolha, a de ser livre. Mas o que ela não mensurou foi a área limítrofe do seu ideal de liberdade, pois por via de regra, ela estava inserida num contexto social de instabilidade bélica, onde uma decisão individual repercutiria significantemente no coletivo; entende-se aqui um dialogismo tênue e balizador da  conduta tida como ética. Mesmo se expondo ao risco da queda, Olga decidiu lançar  os dados e lutar pelo o que ela acreditava ser justo. O ambiente era hostil, uma vez  que não havia nenhum acolhimento da ordem ética e moral que a amparasse. Até mesmo os ídolos possuem pés de barro, mas Olga decidiu seguir com seu olhar ufanista-ideológico. Como disse Sartre:
 “ O homem não é senão o seu projeto. Só existe na medida em que age, em que se realiza pela ação. Sua essência se resume no que determina realizar-se: podendo optar por ser um homem honesto, um bandido, um santo”.
O fim trágico de Olga Benário foi açodado por sua conduta de descontentamento e revolta  contra os valores pífios do Estado ditatorial. Seu extermínio foi como uma crônica de uma morte anunciada, pois Olga reunia em si elementos da ordem religiosa e política que causava repúdio ao regime nazista. A vida humana enquanto valor ético não estava salvaguardada, até o dado momento, por nenhum  acordo de  proteção internacional, mas que por direito era algo nato ao indivíduo. Às vésperas de sua morte Olga Benário disse: “Amanhã vou precisar de toda minha força... de toda minha vontade. Não posso pensar nas coisas que torturam meu coração e que são mais caras que minha própria vida”.
 A câmara de gás, usada pelo aparelho repressor alemão como a panacéia de extermínio em massa, simbolizou um período histórico asfixiante e reticente, ou seja, uma década de trinta maculada por práticas truculentas, semelhantes às executadas pela Inquisição do período medieval, e que despiu o homem do século vinte, deixando à mostra sua dependência pelos Homens  Bárbaros... pois Eles ainda estão chegando...
E agora o que será de nós se por uma eventualidade os Bárbaros não chegarem? Vamos retroceder no tempo e nos posicionar através do id? Apenas sentar e começar a chorar? Não!É esperado muito mais para um(a) operador(a) do Direito. Seria inadmissível o delegar ou protelar o que nos é de responsabilidade. Não podemos vestir a nossa majestosa beca e ficar esperando por atitudes alheias numa fila de supermercado. Reiterando o que já foi dito por Sartre: os dados foram lançados, e eu entendo que a jogada é única! Vamos fazer valer as regras do jogo com valores morais e a ética profissional. Talvez os Bárbaros nem existam mais, e seria por demais piegas continuar esperando...




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÓDIGO DE NUREMBERG, 1947.
DALLARI, Dalmo. “Bioética e Direitos Humanos”. In: FERREIRA, Sérgio et al. Iniciação à Bioética. Brasília: CFM, 1998, p. 231-242.
DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948.
KAVÁFIS, Konstantinos. esperando os bárbaros.






Nenhum comentário:

Postar um comentário