O
triste fim de Olga Benário
Joelma Barbosa dos Anjos
“ O homem é
fruto de suas escolhas.”
(Jean-Paul
Sartre)
Com
a citação propedêutica de Sartre, faz-se mister discorrer de forma elucidativa
e objetiva no que tange ao contexto histórico, político e social da Alemanha e
do Brasil na década de 30, cujas conjunturas implicaram numa postura de
descontentamento, insurreição e extermínio de Olga Benário.
Sob
a batuta nazista de um Estado totalitário e de caráter nacionalista exacerbado,
foi que a Alemanha despontou ameaçadora com seu arsenal bélico e a propagação
da ideologia anti-semita, assim como anti-comunista, tendo como liderança funesta o
führer Adolf Hitler. No Brasil, a década de 30 foi preponderantemente a base de
disseminação das idéias ditatoriais, que culminariam na projeção de Getúlio
Vargas como figura expoente na política e articulador contundente nas tomadas
de decisões pertinentes ao país. Destarte, as trincheiras antagônicas passaram
a ser erguidas, ou seja, o pavio foi aceso, e uma nova sanção normalizadora
passou a vigorar. Entrementes, o Estado passou a controlar o indivíduo de forma
incisiva, destituindo-o de sua autonomia, sendo a Alemanha a expressão mais sórdida
nesse método de aniquilação dos direitos da personalidade.
Foi
com esse plano de fundo histórico permeado de censura, castração ideológica,
repúdio à subversão, intolerância religiosa e racial, que Olga Benário
tornou-se vítima de um ordenamento déspota. Ao fazer a escolha de militar
contra o regime vigente de sua época, Olga acabou por decretar sua própria
sentença de viver à margem da sociedade, haja vista, a condição aquém da
militância comunista frente à ordem recrudescente nazista.
Em
meio ao miasma que se tornou a corrida armamentista, onde nas entrelinhas era
nítida a fomentação ao ódio e da perseguição étnico-religiosa, que questões de
cunho à dignidade humana, como o direito à vida, à liberdade de expressão e o
direito de ir e vir do indivíduo, foram suscitadas com mais veemência pelas
correntes contrárias ao nazismo e ao fascismo. A adoção e proclamação da
Declaração Universal dos Direitos Humanos ocorreram em 1948, não obstante, o
extermínio em massa de judeus e opositores às idéias apregoadas por Hitler, foi
anterior a essa declaração. Em outras palavras: os direitos elencados nos
artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos são em seu bojo, direitos
intrínsecos à condição humana, e que por anos foram silenciados em campos de
concentração, lançamentos de torpedos e uso da câmara de gás.
Em
suas reminiscências, Olga faz alusão a um episódio de infância indubitavelmente
significativo no que concerne aos seus valores idiossincráticos, todavia,
toldados em parâmetros de pressupostos
morais. Cena inicial do filme: Cercada por crianças que brincam alheias aos
perigos iminentes, Olga olha maravilhada a neve que cai; decidida, pula uma
fogueira sob a advertência austera do pai e diz: “Pai, se eu cair eu não vou
chorar”. De espírito perquiridor , desde sua mais tenra idade Olga Benário já
tinha feito sua escolha, a de ser livre. Mas o que ela não mensurou foi a área
limítrofe do seu ideal de liberdade, pois por via de regra, ela estava inserida
num contexto social de instabilidade bélica, onde uma decisão individual
repercutiria significantemente no coletivo; entende-se aqui um dialogismo tênue
e balizador da conduta tida como ética.
Mesmo se expondo ao risco da queda, Olga decidiu lançar os dados e lutar pelo o que ela acreditava
ser justo. O ambiente era hostil, uma vez
que não havia nenhum acolhimento da ordem ética e moral que a amparasse.
Até mesmo os ídolos possuem pés de barro, mas Olga decidiu seguir com seu olhar
ufanista-ideológico. Como disse Sartre:
“
O homem não é senão o seu projeto. Só existe na medida em que age, em que se
realiza pela ação. Sua essência se resume no que determina realizar-se: podendo
optar por ser um homem honesto, um bandido, um santo”.
O
fim trágico de Olga Benário foi açodado por sua conduta de descontentamento e
revolta contra os valores pífios do
Estado ditatorial. Seu extermínio foi como uma crônica de uma morte anunciada,
pois Olga reunia em si elementos da ordem religiosa e política que causava
repúdio ao regime nazista. A vida humana enquanto valor ético não estava
salvaguardada, até o dado momento, por nenhum acordo de
proteção internacional, mas que por direito era algo nato ao indivíduo.
Às vésperas de sua morte Olga Benário disse: “Amanhã vou precisar de toda minha
força... de toda minha vontade. Não posso pensar nas coisas que torturam meu
coração e que são mais caras que minha própria vida”.
A câmara de gás, usada pelo aparelho repressor
alemão como a panacéia de extermínio em massa, simbolizou um período histórico
asfixiante e reticente, ou seja, uma década de trinta maculada por práticas
truculentas, semelhantes às executadas pela Inquisição do período medieval, e
que despiu o homem do século vinte, deixando à mostra sua dependência pelos
Homens Bárbaros... pois Eles ainda estão
chegando...
E
agora o que será de nós se por uma eventualidade os Bárbaros não chegarem?
Vamos retroceder no tempo e nos posicionar através do id? Apenas sentar e
começar a chorar? Não!É esperado muito mais para um(a) operador(a) do Direito.
Seria inadmissível o delegar ou protelar o que nos é de responsabilidade. Não
podemos vestir a nossa majestosa beca e ficar esperando por atitudes alheias
numa fila de supermercado. Reiterando o que já foi dito por Sartre: os dados
foram lançados, e eu entendo que a jogada é única! Vamos fazer valer as regras
do jogo com valores morais e a ética profissional. Talvez os Bárbaros nem
existam mais, e seria por demais piegas continuar esperando...
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CÓDIGO
DE NUREMBERG, 1947.
DALLARI, Dalmo. “Bioética e Direitos Humanos”. In:
FERREIRA, Sérgio et al. Iniciação à
Bioética. Brasília: CFM, 1998, p. 231-242.
DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, 1948.
KAVÁFIS, Konstantinos. esperando os bárbaros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário