A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera
A incontrolável sede de viver…
Este espetáculo de livro eu li faz tempo, mas conheci muita gente que
simplesmente leu duas e até três vezes. Reler um livro soa meio que
como um mito. Mas não é não, concordam?
Há livros que simplesmente devem ser lidos mais de uma vez. Nesta obra-prima de Kundera — A Insustentável Leveza do Ser
— , além de visitarmos a cidade de Praga (invasão russa em
Tchecoslováquia), temos a especialíssima companhia de personagens
incríveis, e também de Nietzsche, Parmênides de Eléia, Sartre e o mais
maravilhoso: temos vez por outra o próprio escritor a nos fazer
companhia, conduzindo-nos sabiamente pela filosofia, explicando-nos a
realidade sinistra de sua história, que se passa em 1968.
O livro foi publicado em 1984 e talvez muitos de vocês tenham
assistido ao maravilhoso filme de Fhilip Kaufman, que levou o título de The Unbearable Lightness Being. Trata-se
de um romance aparentemente comum, contando a história de Tomas e
Tereza e o cenário, o ano – 1968 – tudo contibui fantasticamente para
surgir uma que é, sem dúvida, uma das maiores obras-primas de todos os
tempos, no quesito literatura-filosófica-história-romance.
Bom, o gênero romance é apenas a âncora para Kundera pôr em questão a
filosofia pré-socrática de Parmênides que dissertava sobre a relação
peso/leveza. Segundo o filósofo, a problemática estava na dualidade do
Ser, onde afirmava que esta dualidade surge da presença e da ausência de
entidades. Por exemplo, o frio é apenas a ausência de calor, as trevas
são a ausência de luz, então, embora estejamos acostumados com o novo
pensamento lógico da vida, para este filósofo a relação leveza/peso
afirma o peso como ausência, como não não-leveza.
A partir desta teoria (530 a.C – 460 a.C), Kundera constrói Tomas, um
personagem que se recusa a carregar o peso da vida, vivendo sem nenhum
compromisso com quaisquer problemas sejam de ordem política, nas
relações amorosas, enfim, o personagem escolhe ser “leve”, ou seja,
livre. Mas Kundera nos leva aos poucos à meditação Nietzscheana, quando
pondera sobre o Eterno Retorno, teoria que prevê o angustiante vazio
para quem assume levar uma vida linear, longe de buscas e aventuras.
Segundo Nietzsche a vida é um eterno retorno, porque precisamos,
temos a obrigação de errar e voltar a errar quantas vezes for necessário
desde que não cometamos o primário erro humano de levarmos uma vida
dentro de um ciclo de mesmices. Esta teoria de Nietzsche nos convence,
em suma, a levarmos uma vida de liberdade, uma vida que valha a pena ser
vivida.
Trata Kundera, ainda, da questão da Compaixão, sob o aspecto
filosófico das línguas germânicas e latinas, Kundera discute a partir
dos significados. Através da história, vemos que Compaixão nada mais é
que um terrível sentimento de superioridade de um indivíduo sobre o
outro que sofre. E na incapacidade egoísta deste indivíduo superior de
sentir a dor do outro, faz com que o outro sofra duas vezes sua dor.
Kundera utiliza-se desta metáfora para construir a relação de Tomas com
Teresa, porque Teresa é uma moça simples, do Interior, enquanto Tomas é
um rapaz rico, médico renomado e muito bonito. Mas ainda existe Sabina,
mulher com quem Tomas mantém uma realação amorosa de liberdade longe dos
padrões pré-estabelecidos. Esta mulher é como se fosse a versão
feminina do personagem.
É um livro gostoso de ler, vocês terão a companhia do próprio Kundera
que se retira da narrativa muitas vezes para passar para o leitor em
que terreno filosófico ele está pisando, na forma de rodapés, no
decorrer da história. Fantástico. Obrigatório, porque considero uma pena
não termos acesso a Parmênides, Nietzsche e Sartre. Mas não há mais
desculpas, é só ler A Insustentável Leveza do Ser,
de Milan Kundera e através de uma história de romance que se passa em
Praga, em plena invasão russa e tenho certeza que este é um tipo de
livro que muda nossa vida, desses que, como disse no início lêem-se mais
de uma vez. É o que pretendo fazer esta semana. Reler A Insustentável Leveza do Ser.
Trechos do livro:
Um sobre o outro, eles cavalgavam juntos. Iam juntos em direção às distâncias desejadas. Atordoavam-se numa traição que os libertava. Franz cavalgava Sabrina e traía sua mulher, Sabrina cavalgava Franz e traía Franz.
Teresa voltou para casa mais ou menos a uma e meia da manhã, foi ao banheiro, enfiou um pijama e deitou-se ao lado de Tomas. Ele dormia. Inclinada sobre seu rosto, na hora de aproximar os lábios, sentiu em seus cabelos um cheiro estranho. Mergulhou longamente as narinas. Ficou cheirando-o como um cachorro e acabou compreendendo: era um cheiro feminino, cheiro de sexo.
Durante uns vinte anos, sua mulher fora para ele a encarnação de sua mãe…in: lendo.org
Nenhum comentário:
Postar um comentário