terça-feira, 7 de junho de 2022

Memórias de Francisco


 PRÓLOGO   

Reza a lenda familiar que na madrugada do meu nascimento, uma sexta-feira de lua cheia e brilhante, todos os terreiros de candomblé da pequena vila de pescadores de Arembepe tocavam seus tambores e atabaques de forma uníssona. 

Enquanto as canções eram entoadas no dialeto iorubá, minha mãe gemia bravamente diante de uma nova contração. O parto se deu numa pequena e humilde cabana de pau a pique coberta com palhas, tendo como testemunhas a experiente parteira Dona Zulmira, uma solteirona de 68 anos e a mãe Lucinda, uma ialorixá da comunidade, amiga de longa data de mainha. 

Entre o exato momento do meu nascimento e o primeiro choro, houve um lapso temporal de duas horas. Durante esse intervalo que se mostrou interminável, todos os presentes se mostraram tensos e temerosos quanto ao meu destino. Havia um verdadeiro temor à época do ocorrido quanto à crença do Àbíkú. Minha mãe chorava muito, pois não queria que seu primogênito, que tinha acabado de chegar  ao Ayié, voltasse ao Orún. 

Foi então que chorei, mas chorei tanto que outra problemática foi suscitada: o que fazer com aquela criança tão chorona? Até hoje eu não saberia responder como consegui a façanha de mamar chorando, brincar chorando, participar das cantigas de roda chorando! Foram tantos choros que acabei aos três anos de idade sendo jogado num rio de água corrente e gélida.  Acreditava-se que com esse ritual eu estaria livre de qualquer Ajé. Isto posto, não sei por que cargas d’agua não consegui mais chorar... 

Meu pai era um exímio pescador; nunca faltou comida em nossa mesa, até aquele final de tarde quando sua canoa desapareceu durante uma furiosa tempestade. Foram vários dias de vigília em frente ao mar, e nenhum sinal do seu paradeiro. A mãe Lucinda consultava reiteradamente os búzios, mas nem os oráculos forneciam respostas. 

Página | 2   

Após quinze dias de buscas, sua morte foi dada como certa; os demais pescadores julgavam impossível uma pessoa sobreviver por igual período de tempo sem água potável e comida.  

A comoção foi geral  na pequena vila. Painho sempre foi meu herói; eu amava ficar olhando sua partida para o alto mar em sua pequena canoa. Ele criou um verdadeiro ritual antes de se lançar na tépida água. Geralmente acordava antes do nascer do sol, tomava uma caneca de café, acendia um cigarro de palha, beijava a face de mainha e ia até à tarimba onde eu dormia e passava as mãos por meu cabelo. Era tão reconfortante aquele gesto de carinho! E em seguida partia lentamente arrastando sua rede de pesca e uma garrafa de pinga. 

A mãe Lucinda consolava mainha dizendo que um negro quando morre se torna ancestral, vira um Orixá. Que painho tinha retornado ao Orún completar seu Odú. Que Obaluaê, Nanã e Oxumaré  o guiariam para sempre.              

Página | 3   

CAPÍTULO I   

Eu já contava com seis anos de idade quando fomos de muda, mainha e eu para Salvador. No primeiro instante ficamos na casa de dindinha Helena no bairro de Capelinha de São Caetano, mas nossa estada foi breve, pois surgiu a oportunidade de mainha trabalhar como doméstica na casa de uma  grã-fina na Rua Chile. Dona Herculana Mercês era casada com o Desembargador Dr. Estêvão Mercês, homem sisudo, dado às leituras, comedido com as palavras, mas vez ou outra esboçava um sorriso discreto para mim. Quanto à Sra. Mercês era o oposto do marido; estava sempre com um sorriso no rosto, falava pelos cotovelos e exigiu que mainha me matriculasse numa escola, argumentando alto e bom som que os estudos dignificavam o homem. 

O filho do casal morava no Rio Grande do Norte, era juiz na capital, e dificilmente aparecia para visitar os pais. Diante da citada peculiaridade, só posso dizer que fui beneficiado com a negligência do “doutorzinho”, pois a Sra. Mercês não economizava em carinhos, elogios e insistia nas compras de pequenos mimos para mim. 

Mainha alugou um quarto e sala na Baixa dos Sapateiros, e eu passei a estudar ali próximo. Logo de início fiz amizade com um molecote da Liberdade, mas que morava com a vó no Pelourinho; a mãe tinha ido embora para Juazeiro, deixando ele e a irmã Mariana aos cuidados da velha senhora.  Antônio, ou Toinho como era conhecido pela turma da escola, ajudava o avô a vender ervas de banho na Feira de Água de Meninos. 

Quando éramos liberados da escola, nos dirigíamos à porta do Cine Tupy. Gostávamos de ver aqueles homens vestidos de ternos e gravatas, entrando e saindo do cinema. Eu tinha a convicção de que todos eles eram desembargadores como o Dr. Estêvão Mercês, pois era aquele tipo de roupa que diariamente o patrão de mainha vestia para ir trabalhar. 

Página | 4   

Toinho era um moleque bem franzino, cabelos crespos, pele tostada pelo sol e o seu olhar estava sempre distante; acho que ele tinha saudades da mãe, assim como eu tinha de painho.  

Do alto do Elevador Lacerda, ficávamos deslumbrados com as enormes embarcações que atracavam no cais. Eu sempre tinha em mente que algum dia eu partiria com mainha para algum lugar além-mar. Nessa terra distante minha mãe era uma rainha muito bela com seus cabelos soltos ao vento, e com seu vestido longo e azul igual ao de Iemanjá.                    

Página | 5   

CAPÍTULO II   

Não sei como tudo aconteceu, mas de repente eu tinha um padrasto. Seu nome era Givanildo, estivador no porto e proveniente do recôncavo, mas precisamente da cidade de São Félix. Mesmo a contragosto, pois o meu pai seria insubstituível, acabei aceitando a presença daquele indivíduo; a felicidade de mainha vinha antes de tudo. Era um negro de estatura mediana, corpo robusto e braços fortes em decorrência da árdua e sofrida jornada de trabalho. Fazia o tipo bonachão, e aos poucos fui simpatizando com ele. 

A vó de Toinho tinha sido despejada do casebre onde morava no Pelourinho, e assim eles foram morar no subúrbio ferroviário numa casa cedida por um parente. Passei a me sentir muito só nas andanças pelo Centro Antigo. 

Estávamos nas festividades natalina, e mainha sobrecarregada de trabalhos na casa da Sra. Mercês, pois seria dada uma grande ceia na noite de natal a um seleto grupo de intelectuais soteropolitanos. A mim, foi delegada a responsabilidade de descascar as batatas, o que realizei com muita destreza.  

Passava das duas horas da madrugada do dia vinte cinco quando a recepção acabou e nos dirigimos a nossa casa. Eu ia abraçado à cintura de mainha, e ela tinha colocado um dos braços por meu pescoço. Alguns beberrões gritavam euforicamente enquanto caminhávamos pela rua pouco iluminada. Apressamos os passos. Um casal se beijava sob uma marquise, e nem notou nossa presença. Seguimos adiante. 

Um alvoroço era perceptível mesmo de longe em frente à avenida onde morávamos. O motim era geral, e não foi possível entender o porquê daquele quiproquó. Diversos impropérios eram ditos ao mesmo tempo. Empurrando-me com firmeza, mainha conseguiu fazer com que nós atravessássemos aquele cenário de balbúrdia. 

Página | 6   

No dia seguinte nos mudamos para uma casa maior, localizada na Ladeira da Montanha. Na verdade era um velho sobrado, mas oferecia dois quartos e tinha um banheiro dentro de casa; não precisaríamos dividir com mais de dez pessoas como era na outra morada. Mainha e Givanildo ficaram com o quarto maior aos fundos, e eu com o menor, que ficava logo na entrada da casa. 

Notei pela janela quebrada do meu quarto, que todas as noites, estivesse quente ou frio, sempre havia uma luz vermelha em frente a um velho casarão na nossa rua, só que este era de três andares, e muitos homens eram vistos entrando, mas eu acabava dormindo, e nunca os vi saindo.                

Página | 7   

CAPÍTULO III   

Há uma tendência intrínseca à condição do adolescente, que o faz subverter da forma mais inusitada todas as regras estabelecidas pelos pais, é a chamada curiosidade. Comigo não seria diferente. A luz vermelha não saia da minha mente. 

Certa noite, após mainha e Givanildo terem se recolhidos para o quarto, levantei-me sorrateiramente da minha cama e fui montar guarda diante da janela. O velho assoalho rangia a cada passada minha, parecia que ia acordar toda a Cidade Baixa. Eu prendia minha respiração ante o medo que mainha despertasse, ela não admitia que eu ficasse acordado até tarde, pois teria aula na manhã seguinte e não poderia cochilar diante do professor. 

Lá fora sob uma luz fraca, dois homens jogavam dominó nas aproximações do casarão da luz vermelha. Como gesticulavam muito,  pareciam discutir o tempo todo, pois um queria trapacear o outro. Não demorou muito e começou um verdadeiro desfile de homens pela rua. Alguns trajavam ternos e gravatas, e os demais davam a ideia de que tinham acabado de sair do porto.  

Comecei a sentir as pálpebras pesadas, mas com muita determinação consegui afugentar o sono. Decidido, abri com um esforço sobrenatural o trinco emperrado da velha porta do andar de baixo, e saí.  A brisa que vinha do mar fazia com que noite estivesse com um clima agradável. 

Não encontrei nenhuma dificuldade em adentrar no velho casarão. Senti-me como se fosse um homem invisível. Fiquei espantado com as roupas que as mulheres vestiam, ou melhor, não vestiam. Muitas exibiam os seios sem nenhum pudor. Os homens bebiam muito e riam que nem uns bobalhões. O ambiente era bastante espelhado e a iluminação amarelada; o forte odor de cigarro impregnava o ar. 

Página | 8   

Uma garota me empurrou contra a parede de um corredor. Eu já não era invisível. Notei que era tão jovem quanto eu. Os seios pareciam esmagados no minúsculo soutien. Seu hálito era puro álcool e tinha as unhas pintadas de um vermelho intenso. Mainha sempre me dizia que a Pombagira gostava de vermelho. 

Tentei me desvencilhar da jovem garota, mas ela estava possuída por uma força descomunal. Introduzindo uma das mãos sob meu calção, agarrou meu órgão genital. Mesmo amedrontado, senti-o endurecer. Abaixando-se, a garota levou-o à boca. Estremeci violentamente. 

Uma mulher mais velha, horrenda, diga-se de passagem, pois além de exceder na maquiagem estava mais enfeitada que um jegue na Lavagem do Bomfim como diria Givanildo, apareceu no exato momento em que eu achava que iria explodir de tanto prazer. Puxando a garota pelos cabelos, a violenta e esdrúxula senhora acabou por esbofeteá-la ali mesmo na minha frente. 

Digamos que em questões de segundos eu já me encontrava em casa, trêmulo e assustado. Naquela noite não consegui dormir.  

Só depois de alguns anos é que me tornei frequentador assíduo do casarão.         

Página | 9   

CAPÍTULO IV   

São Roque no candomblé é representado pelos orixás Obaluaê e Omolu. No dia dezesseis de agosto é dia de festa na Igreja de São Lázaro, e naquele ano em especial por ter recebido várias bênçãos, mainha colocou seu melhor vestido e saiu arrastando eu e Givanildo para a celebração. Durante o percurso ia rezando as Orações ao Senhor Obaluaê que conhecia: 

Proteja-me, Pai, Atotô Obaluaê! Oh, Mestre da Vida, Proteja seus filhos para que suas vidas sejam marcadas pela saúde. Vós sois o limitador das enfermidades. Vós sois médico dos corpos terrenos e almas eternas. Suplicamos sua misericórdia aos males que nos afetam! Que suas chagas abriguem nossas dores e sofrimentos. Concede-nos corpos sadios e almas serenas. Mestre da Cura, amenize nossos sofrimentos que escolhemos resgatar nessa encarnação! Atotô meu Pai Obaluaê! +++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Dominador das epidemias. De todas as doenças e da peste. Omulu, Senhor da Terra. Obaluaê, meu Pai Eterno. Dai-nos saúde para a nossa mente, dai-nos saúde para nosso corpo. Reforçai e revigorai nossos espíritos para que possamos enfrentar todos os males e infortúnios da matéria. Atotô meu Obaluaê! Atotô meu Velho Pai! 

Página | 10   

Atotô Rei da Terra! Atotô Babá! +++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Mestre das almas! Meu corpo está enfermo… Minha alma está abalada, Minha alma está imersa na amargura de um sofrimento Que me destrói lentamente. Senhor Omolu! Eu evoco – Obaluaiê Oh! Deus das doenças Orixá que surge, diante dos meus olhos Na figura sofredora de Lázaro. Aquele que teve a graça de um milagre No gesto do Divino Filho de Jesus. Oh! Mestre dos mestres Obaluaiê Teu filho está enfermo… Teu filho se curva, diante da tua aura luminosa. Na magia do milagre, Que virá de tuas mãos santificadas pelo sofrimento… Socorre-me… Obaluaiê… Dai-me a esperança da tua ajuda. Para que me encoraje diante do martírio imenso que me alucina, Faças com que eu não sofra tanto – Meu Pai Senhor Omolu! Tu és dono dos cemitérios, Tu que és sentinela do sono eterno, 

Página | 11   

Daqueles que foram seduzidos ao teu reino. Tu que és guardião das almas. Que ainda não se libertou da matéria, Ouve a minha súplica, atende ao apelo angustioso do teu filho. Que se debate no maior dos sofrimentos. Salve-me – Irmão Lázaro. Aqui estou diante da tua imagem sofredora, Erguendo a derradeira prece dos vencidos, Conformado com o destino que o Pai Supremo determinou. Para que eu suplicasse minha alma no maior dos sofrimentos. Salve minha alma desse tormento que me alucina. Tome meu corpo em teus braços. Eleva-me para teu reino. Se achares, porém, que ainda não terminou minha missão neste planeta, Encoraja-me com exemplo da tua humildade e da tua resignação. Alivia meus sofrimentos, para que levante deste leito e volte a caminhar. Eu te suplico, mestre! Eu me ajoelho diante do poder imenso, De que és portador. Invoco a vibração do Obaluaiê. A – TÔ – TÔ, Meu Pai. Obaluaiê, Meu Senhor, ajude-me! +++++++++++++++++++++++++++++++++++++ Salve o Senhor o Rei da Terra! Médico da Umbanda, Senhor da Cura de todos os males do corpo e da alma. Pai da riqueza e da bem-aventurança. Em ti deposito minhas dores e amarguras, rogando-te as bênçãos de saúde, paz e prosperidade. 

Página | 12   

Faz-me, Senhor do trabalho; um filho de bom ânimo e disposição, para triunfar na luta pela sobrevivência. Faz-me digno de merecer todo dia e toda noite, vossas bênçãos de luz e misericórdia. ATOTÔ OBALUAUÊ!    

                 

Página | 13   

CAPÍTULO V   

Aos quinze anos consegui conciliar um biscate, ou melhor, algumas vendas de jornais com meus estudos. Escolhi como ponto estratégico a Avenida Estados Unidos no Comércio. A grana não era isso tudo, mas ajudava um pouco. À noite minhas pernas ficavam doloridas, e ao levantar na manhã seguinte para ir à escola era outro martírio, mas decidi seguir firme e forte. 

Foi numa dessas tardes, enveredando-me pela Avenida da França que encontrei Toinho e Mariana. Eles estavam posicionados numa esquina, cada um segurando bandejas de cocadas. Mostravam-se bastante mudados. Os olhos de Toinho antes distantes, somava-se agora a uma tristeza sem fim. Senti um incômodo. Mariana estava crescida, mas assim como o irmão seus olhos expressavam desespero. Fiquei sabendo que a avó os tinham abandonado em Periperi, e ido embora para Amargosa. Estavam morando num porão no Tororó e acabaram desistindo dos estudos. 

Naquele dia voltei para casa abatido com a situação dos meus amigos. Não conseguia imaginar como seria a sensação de ser abandonado duas vezes por pessoas que a gente aprende a amar, a mãe e a vó. 

Durante um mês fiz o mesmo trajeto com o intuito de encontra-los novamente, mas sem sucesso. Eles partiram mais uma vez. Tal constatação provocou em mim a sensação de impotência. 

O Desembargador e a esposa iriam viajar para Natal no dia seguinte, e tinham dado à mainha duas semanas de folgas. Givanildo tinha proposto uma viagem a São Félix, o que mainha aceitou incontinenti.  

A viagem foi divertida e acabei por um tempo esquecendo dos problemas alheios. Comi maniçoba, experimentei um delicioso licor de jenipapo e a noite acabou numa roda de samba. Desde a morte de painho que eu não 

Página | 14   

via mainha tão feliz. Olhei de soslaio para Givanildo e percebi que ele também estava feliz.  

Saí do meio do grupo e fui sentar numa pedra um pouco mais afastada. Fiquei por horas a fio com o olhar perdido nas estrelas. O rosto de Mariana triste e perdido voltou a povoar meus pensamentos. 

Tinha esfriado um pouco, e mainha me chamou para entrar. Ajudei a colocar os bancos para dentro de casa e me dirigi ao sofá destinado para eu dormir. No escuro da sala o sono custava a vir, e passei a rolar pelo pequeno e desconfortável móvel. Por fim, a exaustão acabou vencendo e mergulhei num sono acolhedor.                  

Página | 15   

CAPÍTULO VI   

Quando terminei os estudos foi como se alguém tivesse tirado uma enorme bigorna das minhas costas. Seria eternamente grato pelo apoio recebido do casal Mercês, mas eu ainda não estava muito certo quanto ao meu futuro profissional. A única convicção era da vontade de partir numa daquelas embarcações que atracava diariamente no cais. 

Uma oportunidade irrecusável de emprego, no entanto, acabou por prorrogar esse sonho. Um conhecido de Givanildo me convidou para trabalhar como fiscal de cargas no Porto de Salvador. O salário era muito bom, o que me permitiria morar sozinho. Mainha não iria gostar muito da ideia, mas eu precisava do meu espaço. 

Aquele dia só não foi melhor porque ao final da tarde recebi a notícia do falecimento do Desembargador Mercês, morreu enquanto dormia. Mainha e a Sra. Mercês estavam com os olhos vermelhos e inchados. Olhei para o caixão e tentei chorar. Nenhuma lágrima. A dor era enorme, mas nenhuma lágrima descia. Seria outro Ajé? Vários conhecidos foram chegando para o último adeus ao sisudo Desembargador. 

Fui andando para casa transtornado. De repente começou a chover. A chuva vinha em boa hora para lavar toda aquela tristeza. Uma garota passou correndo por mim. Deveria está com muita pressa, pois nem tinha notado que  algo tinha caído do seu bolso. Abaixando-me, dei conta que se tratava de uma carteira de identidade. Quando finalmente me ergui, não pude mais ver a jovem, já tinha desaparecido pelos inúmeros becos do Pelourinho. Olhando para o documento fiquei surpreso com tamanha coincidência. Tratava-se de Mariana, a irmã de Toinho. Depois de anos, finalmente voltava a encontra-la. 

Estariam morando ali no Pelourinho? Eu me perguntava excitado. Precisava de notícias do meu amigo. Às pressas segui o caminho do Terreiro 

Página | 16   

de Jesus, pois quando os conheci era ali perto que eles moravam. Estava molhado até a alma, mas não dava a mínima tal era meu contentamento. 

A luz estava acesa. Chamei pelo nome de Toinho e ninguém apareceu. Chamei por mais alguns minutos e nada. Já estava me preparando para ir embora, quando ouvi um ruído da porta se abrindo. Era Mariana. Olhou-me sem esboçar nenhuma reação. Com um leve movimento de cabeça ela pediu para eu entrar. 

Ficamos por um longo tempo num tipo de acareação. Lembrei-me da garotinha assustada que tinha visto há alguns anos numa esquina do Comércio vendendo cocadas, mas agora estava diante de uma mulher. Senti algo diferente... Mariana estava diferente.  

O espaço ia além da pobreza monástica, contava apenas com uma mesa de canto e alguns lençóis jogados sobre um velho banco. O vestido molhado de Mariana colado ao corpo deixava à vista os seios enrijecidos. Senti-me com o pênis intumescido. Ela me encarava com os olhos arregalados, os lábios entreabertos, úmidos e brilhantes; as faces sombreadas pelos longos cílios escuros. Perdi a noção de qualquer gentileza, e a empurrei contra a mesa de canto. Levantei seu vestido e notei que ela não usava calcinha. Abrindo o zíper da minha calça, peguei meu membro quente, pulsante e a penetrei. A cada investida violenta minha Mariana gritava desesperadamente. Eu mordia suas costas, puxava os longos cabelos, quando tirei o instrumento de minha virilidade da vagina e o introduzi por trás. Ela remexia de uma forma sensual e gostosa me fazendo enlouquecer. Não aguentei por muito tempo e deixei o gozo jorrar. Com as pernas trêmulas, fiquei ali apoiado nas costas dela.      

Página | 17   

CAPÍTULO VII   

Eu não poderia dizer que meu trabalho era exaustivo, mas exigia bastante jogo de cintura. O porto era frequentado por prostitutas que diariamente iam atrás dos estivadores fazendo propostas de programas. Apareciam vários moleques de rua com estratégias diabólicas para furtar as carteiras dos menos avisados, sem falar nas constantes brigas envolvendo punhais. Não eram essas minhas responsabilidades, todavia, eram fatos corriqueiros que acabavam dificultando na minha função de fiscalização das cargas. 

Como eu tinha previsto mainha não concordou com minha saída de casa, apenas aceitou. Passei a morar num pequeno apartamento no Comércio. Mariana morava comigo. Seu irmão Toinho tinha realizado o meu sonho e partido com uma embarcação ninguém sabe para onde.  

Depois da morte do Desembargador a Sra. Mercês foi morar com o filho em Natal, e como resultado mainha ficou desempregada. No entanto, pelo companheirismo e anos de dedicação junta à família, a Sra. Mercês acabou dando uma grana alta à fiel empregada. Tanto mainha quanto Givanildo estavam decididos a morar em São Félix; iriam comprar uma casa e abrir um pequeno restaurante por lá. Fiquei feliz e desejei boa sorte para os dois. No dia da mudança mainha aproximou-se de mim, fez uma reza  e colocou um contra egum no meu braço pedindo para que eu nunca o tirasse; era preciso deixar sair sozinho. Abraçando-a forte, me despedi sem uma lágrima no olhar. Eu tinha certeza que Givanildo cuidaria bem dela. 

Quando cheguei em casa encontrei Mariana febril e delirando. Fui correndo chamar o Dr. Armando, um médico paulista que estava morando no Comércio não fazia nem um ano, mas que conquistou a confiança de vários moradores. 

Página | 18   

Após os exames de praxe, o Dr. disse suspeitar de apendicite e me aconselhou a leva-la ao hospital mais próximo, o que fiz de imediato. O médico plantonista a mandou direto para a sala de cirurgia. No extenso corredor eu aguardava numa aflição sem fim, apertando meu contra egum com tanta força que os nós dos meus dedos chegaram a doer.  

Acabei dormindo, e acordei sobressaltado quando uma enfermeira tocou no meu braço. Ela me olhava com pesar, então, a resposta à minha pergunta nem era preciso ser dada. Comecei a gritar como um louco no hospital. Gritava por não poder chorar, gritava por ter perdido a mulher amada, gritava por mainha não está naquele momento comigo e por fim, gritava para que me socorressem. Alguns enfermeiros me agarraram para conter minha fúria, foi quando senti uma picada no meu braço e pensei, antes de perder a consciência,  que nunca uma escuridão tinha sido tão bem-vinda.    

            

Página | 19   

CAPÍTULO VIII   

Nasci no candomblé, e de acordo com mainha se fosse traçada nossa árvore genealógica, decerto que a raiz esbarraria em alguma oferenda. Decidi por minha iniciação, não que eu tivesse a pretensão de ser pai de santo e assim abrir uma casa de candomblé. Sinceramente eu tinha como intuito o de me aproximar um pouco mais daquela religião afrodescendente que aprendi a amar desde pequeno. Procurei por mãe Esmeralda de Itapuã para os preparativos e parti para o recolhimento de vinte e um dias. Foi feita a raspagem do orô, e por sete dias seguidos tive meu corpo pintado com efun. Durante o recolhimento realizei os banhos, bori e ebós. Aprendi as rezas, cantigas e danças.  

Durante a Yàwó recebi as devidas homenagens da comunidade e segui os demais procedimentos exigidos durante o ritual. Fui orientado a me vestir de branco por três meses e fazer abstinência de cigarros, bebidas alcoólicas e evitar as saídas à noite, em suma, eram os vícios considerados não salutares. Por um ano permaneci fiel às orientações. 

Já fazia cinco anos que mainha tinha ido embora para São Félix quando apareceu de supetão no porto onde eu ainda trabalhava como fiscal. Continuava linda, mas alguns cabelos brancos se destacavam na ampla cabeleira. Só então lembrei que no dia seguinte teria festa na igreja de São Lázaro. Cingindo-a pela cintura fomos tomar uma limonada. 

Num breve relato fiquei sabendo que o restaurante vinha prosperando e que já estava sendo frequentado por vários  turistas da Europa, e por que não dizer do mundo?. Mainha era a expressão da felicidade. Fiquei tão orgulhoso dela e de Givanildo. Quando terminei meu expediente, peguei sua pequena mala e nos dirigimos ao meu apartamento. 

À noite na minha cama lembrei-me de Mariana, ainda estava muito viva em meus pensamentos. Via-a com seu sorriso encantador que parecia iluminar 

Página | 20   

a capital em um dia nublado, ou enquanto passeávamos pelo Mercado Modelo, e da forma enlouquecedora como ela cravava as unhas em minhas costas enquanto fazíamos amor. Às vezes ela parecia durante um sonho beijando as minhas mãos e me pedindo para ser feliz. Para meu espanto o mesmo sonho passou a se repetir com mais frequência. Eu tentava decifrar aquela mensagem, porém não conseguia entender a simbologia dos beijos em minhas mãos, pois quando em vida Mariana jamais tinha feito aquela demonstração de carinho.   

Consultei mãe Esmeralda de Itapuã. Jogando os búzios ela me disse que as respostas para minhas inquietações estavam todas dentro de mim. Franzindo o cenho deixei claro não ter entendido sua colocação. 

Largando os búzios de lado, mãe Esmeralda segurou firme minhas mãos e começou a apertá-las. E a pressão foi aumentando com tamanha intensidade a ponto de eu não suportar de dor e começar a chorar como uma criança de três anos. E então chorei pela perda de painho, chorei pela morte do Desembargador, chorei por mainha ter partido, chorei pelo óbito precoce da minha amada Mariana e chorei de felicidade por estar podendo chorar novamente. 

Sim, eu precisava ser feliz. O Ajé já estava quebrado. Por derradeiro só poderia desejar paz à Mariana, e que ela seguisse seu caminho em busca da luz.         

Página | 21   

CAPÍTULO IX   

Castro Alves estava certo quando disse que a praça era do povo como o céu era do condor. Se eu pudesse ter uma visão aérea da praça naquele momento de carnaval teria a certeza que veria um mar de gente. Os foliões pulavam ao som do trio elétrico de Dodô e Osmar.  

Toinho tinha retornado de suas viagens além-mar e estava comigo atrás do trio. Era outra pessoa. Em suas aventuras por diferentes portos, acabou conhecendo Dolores do Rio de Janeiro. Negra faceira, olhos amendoados e lábios carnudos; costumava dizer que não levava desaforo para casa e que era a negona do balacobaco da Ribeira, onde vendia acarajé. Nós três nos abraçamos e saímos pulando que nem pipoca ao som da guitarra elétrica de Dodô.  

No dia seguinte saí no cordão do Afoxé Filhos de Gandhy. A emoção era ímpar. Amava o ritmo do agogô nos seus cânticos de ijexá na língua orubá. Eu seguia orgulhoso o trajeto com meu turbante e a linda vestimenta branca à indiana; em uma das mãos segurava com firmeza minha garrafinha de alfazema. 

Ao fim do desfile sentia os pés doloridos, mas nem isso conseguiria tirar a sensação de paz que reinava em mim. Encontrei Toinho e Dolores na Avenida Sete. Dirigimo-nos ao boteco mais próximo, queríamos tomar uma “quente”. A bebida desceu queimando minha garganta, e sem vacilar pedi outra dose. Ficamos de papo até o nascer do sol. Bocejando, Dolores decidiu e ir embora, ainda precisava preparar a massa do acarajé. 

No Elevador Lacerda uma morena me encarou. Estava sozinha e trajava uma saia curtíssima. Nos lábios um batom vermelho... automaticamente lembrei da história de mainha acerca da Pombagira e ri discretamente. 

Página | 22   

Puxando-a pelos pulsos, colei-me a ela. O beijo começou de leve, mas a pressão foi aumentando e os lábios da morena passaram a se mover avidamente sobre os meus. Mordiscando-lhe os lóbulos das orelhas, passei a explorar com ansiedade seu corpo. De repente ouvimos um ruído metálico, e a magia do momento foi quebrada com a chegada do elevador.  

Abraçando-a fomos para meu apartamento.                   

Página | 23   

CAPÍTULO X   

 Eu já estava desanimado e concluindo que o rio não estava para peixe, quando fui surpreendido com uma forte puxada no caniço. À margem do rio Paraguaçu, na cidade de São Félix, fisguei uma enorme traíra. Era meu primeiro São João na cidade de Givanildo. Mainha tinha preparado todas as iguarias juninas. Ao lado do restaurante foi montado um espaço de dança para o forró pé de serra que logo mais começaria. A cidade em peso foi convidada para o forrobodó da noite.  

Ao longe avistei Janaína, a morena do batom vermelho; estávamos morando juntos. Ela trabalhava numa loja de roupas intímas na Barroquinha e era uma excelente companheira. Mainha já tinha começado a cobrar pelos netos. Nós nos esforçávamos sempre que era possível, saliento que as tentativas eram prazerosas, mas a gravidez não vinha. Jana começou a ficar preocupada, pois não usava nenhuma precaução e o tão esperado bebê não era concebido. Eu consolava dizendo que na hora certa ele viria, e que os esforços seriam deliciosos. Ela apenas ria. 

Aproximei-me da cozinha onde Givanildo estava e entreguei o peixe, daria um maravilhoso assado. Fui para o banheiro, pois precisava urgentemente de um banho. Estava sob o chuveiro quando vi a porta sendo aberta; era Jana. Tirando as roupas, juntou-se a mim. A água estava fria e ela soltou uns gritinhos. Em pouco tempo estávamos ofegantes e satisfeitos. 

O forró começou cedo, e os profissionais contratados já estavam preparados com o acordeão, zabumba e o triângulo. Com certeza a festa iria até o outro dia. Tinha licor de todos os sabores, e tanto mainha quanto Jana entravam e saiam da cozinha o tempo todo servindo os convidados. A multidão levantava poeira com a dança no salão improvisado.  

Notei que um homem de tronco largo já estava alcoolizado e discutia com uma mulher que tentava tomar o copo de bebida de suas mãos. Algumas 

Página | 24   

pessoas já faziam roda em torno do casal. O homem começou a esbravejar e deu um empurrão na frágil mulher. Tomei a direção da discussão quando senti a mão de Janaína segurando meu braço numa tentativa de me deter. Encarei-a nos olhos e vi medo. Não compreendi, mas com delicadeza retirei sua mão e atravessei o cordão humano. De longe ainda ouvi mainha chamar por mim. Parei na frente do causador de confusão e solicitei gentilmente que ele se retirasse da festa. Grunhindo, o homem pegou algo na cintura que brilhou na noite; era um punhal. Tentou me acerta, porém fui mais rápido e me desvencilhei. A multidão estava agitada e todos falavam ao mesmo tempo revoltados com a situação criada pelo beberrão. A mulher que o acompanhava tentou convencê-lo a sair da festa, como resposta recebeu outro safanão. Enfurecido avancei contra aquele troglodita, dando-lhe uma rasteira. Com a queda o punhal caiu de sua mão. Assustado notei que o indivíduo tinha se recuperado rapidamente da queda e que já estava com a posse da arma. Ágil como um felino e totalmente transtornado pelo ódio, o grandalhão apontou o punhal contra meu peito. Cegamente me joguei no chão fugindo do golpe, foi quando ouvi um gemido de dor. Sem conseguir acreditar vi Janaína ensanguentada caída no chão; foi atingida no peito ao tentar me defender. O assassino empreendeu fuga do lugar. Abraçando-a contra  meu peito eu pedia a todos os orixás que não a deixassem morrer. Eu chorava desesperadamente. Mainha gritava por socorro, e Givanildo estava estático sem saber o que fazer. A festa foi dada por encerrada. 

Dominado pelo pânico constatei que a respiração de Janaína ia paulatinamente enfraquecendo, até que ela deu o último suspiro e faleceu em meus braços. Fiquei ali por um longo tempo agarrado ao corpo sem vida. Sentia-me sem forças e desamparado. Um inesperado arrepio percorreu meu corpo, era como se eu fosse um condenado a caminho da forca.     

Página | 25   

EPÍLOGO   

A enorme embarcação ia avançando lentamente pela Baía de Todos os Santos. Da popa eu tentava registrar cada paisagem que me era familiar e que aos poucos ia ficando para trás. O mar estava tão azul quanto o céu naquela tarde de verão. Acomodei-me num banco e estendi minhas pernas, cruzandoas nos tornozelos. Procurei por meu isqueiro no bolso da camisa, o cigarro tinha se tornado em meu fiel companheiro. Acendo-o, segurei por entre os dedos.  

No fundo eu sempre soubera que aquela viagem surgiria, mas nunca sob circunstância de  extrema solidão. Puxei a aba do velho boné  até os olhos, fechando-os,  e  me encostei pensativo junto ao costado da embarcação. 

Para onde eu iria? Essa era uma incógnita, talvez a parte mais excitante da longa viagem. Lançar-me-ia no além-mar em busca de novas descobertas. Em cada porto um novo encontro seguido de uma dolorosa despedida. Vidas que se encontram numa troca recíproca de valores e experiências. Não há como negar esse dialogismo universal que na maioria das vezes nos faz meros coadjuvantes nessa aldeia global. 

Levantei-me de um salto e fui jogar o cigarro ao mar. Começava a escurecer e algumas estrelas já despontavam aqui e acolá. Veio-me à memória época de uma infância feliz em que na companhia de Toinho corríamos como loucos por entre os comerciantes do Mercado Modelo, e ao final exaustos, pegávamos um barco em direção ao Forte de São Marcelo. Lá nos estendíamos no chão, entre gargalhadas, sob um céu estrelado. 

Mesmo diante das situações mais insólitas há a necessidade de erguer a cabeça e seguir marchando entre risos e lágrimas. Já dizia um escritor que para nascer é preciso destruir o mundo. Sim, sempre acreditei que havia uma misteriosa proximidade entre o Ayié e o Orún. Desse modo, cada indivíduo em 

Página | 26   

algum momento de sua vida teria que sair da  zona de conforto para enfrentar seus maiores fantasmas; talvez funcionando num esquema de moeda de troca. 

Não muito distante ouvi um senhor tossir de forma insistente. Olhei obliquamente e notei que ele estava enrolado num trapo e cabisbaixo. Aproximei-me oferecendo meu canil com água. A mão idosa agarrou a garrafa com avidez, levando-a em seguida aos lábios ressequidos. Agradeceu-me humildemente erguendo a cabeça. Comecei a estremecer no mesmo instante em que o fitei. Mesmo maltrapilho e envelhecido pelo tempo, reconheci os traços de painho! Seria um fantasma? Um Ajé? Afastei-me assustado. 

Minutos depois fiquei sabendo por um experiente marinheiro que aquele taciturno velhinho, tinha sido essa a expressão usada, já fazia aquela viagem sozinho há muitos anos,  e que boatos davam conta que ele tinha perdido a memória em um acidente marítimo ao qual tinha conseguido sobreviver. 

Sim, entre risos e lágrimas é preciso se reinventar. Agradeci ao marinheiro pelas preciosas informações e fui reencontrar meu pai.